[Este texto é um trabalho de Pedro Carreira, realizado no âmbito da disciplina de Antropologia no Seminário Diocesano de Leiria]

I - Introdução

A Freguesia do Souto da Carpalhosa dista aproximadamente 14 Km da sede de Concelho e está situada na margem direita do Lis. É atravessada pela estrada Porto-Leiria (EN 109), pela linha férrea do Oeste e é servida pela estrada de Monte Real. Desta Freguesia fazem parte os seguintes lugares: Arroteia; Assanha; Camarneira; Carpalhosa; Casal Telheiro; Chã da Laranjeira; Conqueiros; Estremadouro; Jã da Rua; Marinha; Penedo; Picoto; Relvinhas; S. Bento; S. Miguel; Sargaçal; Souto de Cima; Souto de Baixo; Vale da Pedra e Várzeas. Em seguida vamos expor alguns temas referentes à nossa Freguesia e que são de interesse antropológico visto que este trabalho foi realizado em primeiro lugar para a disciplina de Antropologia Cultural, 10º Ano.

II - Alguns apontamentos da história da freguesia

Com uma história já longa, a Paróquia do Souto da Carpalhosa ter-se-á tomado autónoma em 1180 (data não comprovada). Mas com mais certeza podemos referir o ano de 1218 em que a referida Freguesia já existia, como nos diz o capítulo 92 do Couseiro:”Não há notícia da sua erecção, mas no ano de 1218, sendo já freguesia, com cura chamado Estêvão, cónego de Santa Cruz, fizeram doação de uma propriedade que tinham no lugar do Souto um Pedro Mendes e Pedro Vieira e outros moradores ao prior e religiosos de Santa Cruz, para nela se fazerem igreja e cemitério, o que consta da cópia autêntica da dita doação que está em um livro das Cartas e papéis tocantes a este Bispado, a folhas 81, no Cartório Episcopal”.

Certeza temos ainda de que em Dezembro de 1211 já existia aí uma igreja paroquial dedicada ao Santíssimo Salvador, o que traduz certa importância desta povoação já nessa altura. No referido ano de 1211 o propósito da repartição dos dízimos e outros direitos das igrejas e ermidas do concelho de Leiria, entre o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e os clérigos beneficiados de Leiria, fez-se uma composição. Nesta composição ficou estipulado que: relativamente às igrejas do Souto, Colmeias, Vermoil, S. Simão de Litém e Espite os rendimentos seriam arrecadados na totalidade pelo Mosteiro; relativamente às igrejas e ermidas da Vila de Leiria e do Sul do concelho da mesma os rendimentos seriam arrecadados na totalidade por três partes sendo duas delas paro o Mosteiro e a terceira para os clérigos beneficiados de Leiria. Neste documento oram também referidas as fronteiras entre o Souto e a antiga freguesia de S. Tiago de Leiria. A Freguesia do Souto da Carpalhosa já estava definitivamente criada nos princípios do século XIII e abrangia as actuais freguesias do Souto da Carpalhosa, Monte Redondo, Bajouca e Coimbrão. Desde cedo surgiram disputas entre a Sé de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz quanto à jurisdição que ambos pretendiam exercer na parte norte do termo de Leiria, onde se situa também a Freguesia do Souto. Esta disputa deu origem a longas e belicosas controvérsias assim como a numerosos documentos. A criação da Diocese de Leiria em 1545 veio pôr termo a esta disputa, mas este facto não foi aceite pacificamente.

Como a Freguesia do Souto da Carpalhosa se encontrava na zona disputada sofreu naturalmente influências da situação vivida. Ao longo do tempo foram várias as doações feitas pelos naturais da Freguesia do Souto da Carpalhosa tanto à igreja como ao Mosteiro de Alcobaça. Quando em 16 de Setembro de 1527 se reuniram os moradores do termo de Leiria para fazer o contrato das sisas a arrecadar pela Coroa estiveram também presentes alguns moradores do Souto. Foi possivelmente durante, o govemo do Bispo de Leiria D. Frei Gaspar do Casal que foram anexados à Freguesia do Souto os lugares de Riba d'Aves, Lagoa, Ruivaqueira e Casal das Várzeas. Em 1589, a pedido dos moradores da parte norte da Freguesia do Souto, foi criada uma nova freguesia: a de Monte Redondo, cujo orago é a Nossa Senhora da Piedade. No lugar das Várzeas foi construída em 15913 uma ermida de invocações de S. Martinho, provavelmente no sítio de outra muito mais antiga já mencionada como existente em 1435 e talvez já em 1278, pois havia aí um a confraria nesse ano. Além dessa ermida e da igreja paroquial, já existente, talvez antes de 1545, no lugar de S. Miguel, uma ermida da invocação de Nossa Senhora da Portela e mais tarde de Santo António. O nome do lugar está a indicar a mesma ermida ou outra do sítio fora antes do orago de S. Miguel. Era nesta ermida que os principais do século XVII se administravam os sacramentos, enquanto a igreja paroquial esteve em reconstrução, terminada em 1602 e a servir novamente-ao culto desde 1603. Em 1612 já se refere a existência da capela de Nossa Senhora dos Remédios. Segundo o Couseiro, “no Casal onde chamam o Porto de Santo Ildefonso”, foi feita e dada por pessoas particulares, em 1618, uma ermida dedicada a S. Bento que em 1721, se diz existir no lugar de Jã da Rua. No ano de 1635 foi edificada na quinta da Chã da Laranjeira uma capela particular dedicada a Santo António pelo seu proprietário Lourenço Mendes de Abreu.

Em 1638 a Freguesia do Souto foi elevada a vigararia. Segundo o editor do Couseiro - o Padre Inácio José dos Matos, que está sepultado à frente da capela dos Conqueiros - “fez-se uma capela na Chã da Laranjeira, da invocação de S. Bento e nela se principiou a dizer missa, com pequeno erro, em 1847. No Vale da Pedra se fez outra (...) dedicada ao Senhor dos Aflitos, na qual se disse a primeira missa em Maio de 1848”, reformada em 1869. Além das ermidas mencionadas há ainda a registar a de Nossa Senhora da Boa Morte no Souto de Baixo. Registem-se as duas últimas desmembrações efectuada à Freguesia. Referimo-nos à criação das freguesias da Ortigosa em 1962 e da Carreira em 1989. Antes da desmembração da Carreira a Freguesia do Souto da Carpalhosa ocupava a área de 4096 hectares.

III - Alguns lugares da freguesia

Neste capítulo vamos estudar um pouco os vários lugares da Freguesia apontar, quando possível, a capela ou a igreja, os passos de construção do lugar de culto, a história do lugar, etc.

SOUTO — O nome indica o lugar elevado em que está edificado, na encosta da elevação central que integra três montes, rasgados pelas ribeiras do Souto e da Carpalhosa, e que albergam os lugares da freguesia. A igreja paroquial do Souto é de exterior pobre. Digna de nota há apenas a grande escadaria que dá acesso ao adro. Interiormente, porém, podemos afirmá-lo, é uma das mais belas da Diocese e única no género. O retábulo e altares são de talha dourada. O que, porém, a transformou, foram as obras de 1929. Queria o Sr. Padre Jacinto que a igreja fosse verdadeira casa de oração, onde nos sentíssemos bem. Queria que sua igreja fosse artística, embora simples, sem as aberrações de mau gosto que se notam em muitas outras.

O Sr. Padre Jacinto imaginou a obra. Precisava-se do artista que a executasse. Felizmente apareceu esse artista. Foi o insigne miniaturista Eduardo Mafra Elias, das Caldas da Rainha.

A obra custou aproximadamente 62 contos. O soalho é de cerne das matas nacionais com desenhos a macacaúba. As paredes são estucadas, com divisões a painéis.

A obra de Eduardo Elias é propriamente o tecto. Está dividi-do em três grandes partes, cortadas no sentido longitudinal. Cada parte tem sete painéis ou grandes quadros. Na parte do meio está em resumo a vida de Nosso Senhor, sobressaindo ao centro o quadro grande da Transfiguração - Patrono da Freguesia. Os outros quadros são: Anunciação; Nascimento de Jesus; Baptismo; Ressurreição; Ascensão e Santíssima Trindade. Nas partes laterais estão os 14 quadros da Via-Sacra.

A obra é em baixo-relevo, em estuque, e todas as figuras têm um metro de altura. Esta obra é realmente de valor. Em frente da igreja encontra-se um pelourinho, obra da Juventude Católica. A igreja e a Freguesia têm por orago o Santíssimo Salvador sendo feitas festas a Nossa Senhora da Boa Norte (15 de Agosto) e ao Mártir S. Sebastião (Agosto)

Várzeas — O nome do lugar virá possivelmente do facto de este estar situado numa planície que também pode ter designação de várzea. A capela foi edificada em 1596 e é dedicada a S. Martinho.

Vale da Pedra — Está situado num vale onde há muita pedra e conta-se que começaram a chamar a este lugar: “Vale de Pedra” o que mais tarde veio dar “Vale da Pedra”.

Em 1848 um homem viaja entre o Carregado e Lisboa. Está em perigo e invoca o Senhor dos Aflitos, prometendo colocar uma imagem daquele santo na sua terra natal. Salva-se. Até aqui, a história é muito idêntica a muitas outras espalhadas pelo país. É a partir deste ponto que cada uma começa ganhar personalidade, marcada pelo lugar onde se desenrola a segunda parte, assim como pelos protagonistas que formam o enredo.

Neste caso particular, José dos Santos, são e salvo, regressa a Lavegadas - Vale da Pedra -, local onde vivia, tendo-se desde logo empenhado em cumprir sua promessa. A ele se juntou José da Silva, pelo que começaram uma ermida onde pudessem colocar a imagem do Senhor Jesus dos Aflitos, como se podo ler num documento da época. Passados cinco anos iniciou-os a sua ampliação. Em 1862 construiu-se a torre e adquiriu-se o sino. Dois anos mais tarde “trabalhou-se na remodelação do retábulo e do altar”.

Em 1859, na altura de José Rodrigues Ascenso, capelão daquele lugar desde 1866, foram reiniciadas as obras de alargamento, pois o espaço já não era suficiente para albergar todos os crentes. Estas obras continuaram até 1874, ano em que se construiu torre, ficando a capela com o aspecto que hoje apresenta. A construção ganhou, ao longo de mais de um século, características peculiares. O seu interior tem a beleza e o aconchego de diversas gerações. Faz parte da história da localidade.

Arroteia — Este nome talvez tenha relação com as antigas arroteias ou acções de desbravamento de terras que possivelmente também neste lugar se tenham realizado. Há neste lugar uma capela dedicada à Senhora dos Remédios muito antiga, referida já na primeira metade do século XVII no livro dos Capítulos e das Visitas. De realçar que o sino da capela foi pago pelo trabalho de tecedeiras, que para tal coisa muitos esforços fizeram.

Além da Senhora dos remédios nesta capela veneram-se também S. Sebastião e Santo António.

Conqueiros — Neste lugar há uma capela dedicada a Santo Ildefonso cuja data de construção não se conhece, mas que se sabe que foi reformada em 1800. Nesta capela está a imagem de Nossa Senhora de Fátima mais antiga da Freguesia. Esta tem cerca de 40 centímetros de altura e aproximadamente 60 anos de idade. Neste lugar houve uma professora cuja filha teve uma doença muito forte e a mãe, um pouco aflita, prometeu a Nossa Senhora de Fátima que, se a filha melhorasse, compraria uma imagem para a capela. A filha melhorou e a professora, cumprindo a promessa, comprou a imagem e fez uma procissão com os alunos da escola dela e estes foram com a imagem e com a professora para a capela. Esta imagem chegou a ir à igreja paroquial para procissões e missões quando a igreja ainda não tinha imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Moita da Roda — Diziam que antigamente havia ali uma moita que deu uma roda, isto é: com a sua madeira construiu-se uma roda de um carro. O lugar foi crescendo e desenvolvendo-se de tal modo que agora tem uma capela concluída há poucos anos. Neste lugar há uma zona chamada Rossio que deu origem à família dos Rossios que daí tiraram o nome.

Chã da Laranjeira — Neste lugar há uma capela relativamente de pequenas dimensões mas bem conservada. Esta capela é dedicada a S. Bento.

Quanto ao nome do lugar sabe-se apenas que é a evolução dum nome anterior: chão da laranjeira.

S. Miguel — Conta-se que o S. Miguel apareceu a uma pessoa num cruzamento da actual localidade, o que justifica o nome. É um lugar antigo que em 1612 serviu para o culto dominical enquanto a igreja foi reconstruída.

A capela foi feita, por um devoto, em honra da Senhora da Portela, mas com o passar do tempo a devoção “virou-se” para Santo António e quando quiseram comprar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima trocaram a imagem de Nossa Senhora da Portela pela de N. S. Fátima.

A festa é no dia 13 de Junho - quando calha ao Domingo - ou no Domingo imediata-mente a seguir.

Sargaçal — Este lugar tem tal nome pelo facto de nele noutros tempos existirem sargaços em grande número.

Estremadouro — O nome deste lugar deve-se ao facto de o mesmo fazer estrema (fronteira) com várias freguesias.

Relvinhas — Conta-se que no princípio, quando o terreno neste local não tinha dono, alguns pastores vinham para aqui com o seu gado e encontravam boas pastagens que davam inclusive para levar forragem para casa. Assim começaram-lhe a chamar relvinhas (diminutivo de relva) e assim se chama hoje.

IV - Vida religiosa e orações antigas

O Souto da Carpalhosa é uma Freguesia em que a actividade religiosa é uma realidade. A maior parte da população é católica e grande parte praticante, participando com grande fervor nos actos litúrgicos que se realizam. Há quem diga que a Freguesia é um pouco tradicionalista no que respeita à religião, sendo no entanto de realçar o esforço que tem sido feito nos últimos tempos no sentido de manter a tradição mas conciliando-a com as alterações actualizadoras da religião.

A vida intensa é obra dos esforços, trabalhos, sacrifícios e canseiras do saudoso pároco desta freguesia, o Rev. Jacinto António Lopes, falecido em 8 de Janeiro de 1938.

Quando em 1907, o sr. prior Jacinto tomava posse da Freguesia, começou logo por fundar a Obra de Santificação Paroquial - Obra que continha todos os capítulos da sua vasta acção pastoral, e que por centro tinha a Sagrada Eucaristia.

Tendo sempre por objectivo o sacrário, vai desenvolver a sua actividade por três sectores principais: comunhão frequente; santificação das festas e a catequese. Na santificação das festas trabalhou sempre com coragem e perseverança. Começou por reduzir abusos e, pouco a pouco, foi introduzindo festas meramente piedosas de que são exemplo as quarenta horas que se realizam nesta Freguesia desde 1908.

O artigo que se segue (extraído do jornal “SOUTO” publicado em Março de 1992) ilustra como eram celebradas as quarenta horas:

Dando continuidade a uma tradição de mais de 80 anos, celebrou-se, na Igreja Paroquial do Souto da Carpalhosa, o Desagravo das Quarenta Horas. Este desagravo foi fundado pelo saudoso Padre Jacinto António Lopes, pároco do Souto de 1907 a 1939. Ao longo da sua história contou com a presença de bispos, como D. José Alves Correia da Silva, D. João Pereira Venâncio, D. Alberto Cosme do Amaral e D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva, bispos de Leiria, e D. António Antunes, bispo de Coimbra, bem como milhares de fiéis vindos de todos os lugares da paróquia e outras paróquias circunvizinhas. Vieram à Igreja do Santíssimo Salvador para desagravar a Nosso Senhor Jesus Cristo dos pecados que contra Ele são cometidos ao longo dos dias de carnaval. Este ano, o Santíssimo Sacramento esteve exposto, no domingo desde as 10 h. e na segunda e terça feira desde as 7H30 até às 15H00, altura em que se fez a adoração geral. Na segunda e terça feira, muitos foram os cristãos que se abeiraram do sacramento da Penitência. Todos os dias, pelas 16H00, foi celebrada a Santa Missa. No primeiro dia presidiu o Reverendo Pároco P. Abel José Silva Santos, nos outros dias foi o Reverendo Dr. Fernando Clemente Varela, professor de direito Canónico no Seminário Maior de Leiria e secretário do Senhor Bispo D. Alberto. Orientou a pregação ao longo dos três dias o Reverendo diácono Rui Acácio Amado Ribeiro, a realizar o seu estágio na paróquia do Souto da Carpalhosa. A linha orientadora da pregação foi: «A importância do Sacramento da Eucaristia na vida do cristão».
Assim numa linguagem fluente e concreta, afirmava: «A Missa, caríssimos irmãos, é o que mais sagrado há na face da terra; e nós corremos o risco de estar a ‘lançar as coisas sagradas aos animais’. E ali que eu reforço a aliança com Deus; é ali que eu Lhe ofereço a minha vida e recebo a Sua; é ali que eu digo e mostro que O amo acima de tudo e ofereço tudo o que sou tenho. E ali que eu sinto Deus em mim e sinto que os outros estão comigo, apoiando-me e exprimindo a mesma fé (...) Convido-vos, irmãos, a viverdes esta quaresma com um espírito novo e empenhativo. Façamos da Eucaristia o ponto central da nossa vida, animando-a, renovando-a, participando; e, sobretudo, façamos da nossa vida, dos nossos dias, uma contínua expressão da lógica de Deus».

A religiosidade do povo é igualmente manifestada na grande quantidade de nichos espalhados pela freguesia. De entre muitos outros aspectos em que o povo, e a própria freguesia, manifestam a sua religiosidade e que poderíamos referir, vamos apenas falar do dia dos fiéis defuntos (2 de Novembro). Neste dia, depois da celebração da Eucaristia lembrando todos os que foram membros do lugar e que já partiram, o povo dirige-se em duas filas da igreja para o cemitério. Aí o celebrante da Eucaristia diz algumas palavras oportunas e procede bênção do cemitério, enquanto vai rezando com o povo alguns Pai-Nossos pelas almas dos que ali jazem. Por este dia é costume enfeitar, com flores ou verdura, as sepulturas de um modo diferente e criativo. Surgem assim belezas decorativas únicas. Neste capítulo vamos também recordar algumas orações antigas que agora a maioria das pessoas já no conhece. Passamos a apresentar o fruto das nossas recolhas nesse campo:

Oração da Manhã

Com Deus me deito, com Deus me levanto;

Com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo.

ou

Ó Jesus, eu Vos ofereço todo o meu dia.

Mãe do Céu, sede o meu amparo e minha guia.

Pai-Nosso; Ave-Maria

Oração da Noite

Nesta cama me vou deitar para dormir e descansar.

Se a morte me vier buscar, agarro-me às chagas, abraço-me à cruz

e entrego a minha alma ao menino Jesus.

Antes da Comunhão

A esta mesa joelho, a esta mesa tão real.

Não sou digno de receber tal manjar.

Manjar tão solene que vem das mãos do Senhor.

Vinde, vinde Senhor que por Vás estou esperando;

a minha alma está triste e o meu coração chorando.

Depois da Comunhão

Alma de Cristo santificai-me;

Corpo de Cristo salvai-me;

Sangue de Cristo inebriai-me;

Paixão de Cristo convertei-me;

Ó meu bom Jesus ouvi-me;

Destas Vossas chagas escondei-me;

Não permitais que ou de Vós me aparte;

Do inimigo maligno defendei-me;

Na hora da minha morte chamai-me;

Mandai-me ir para Vós,

Para que com todos os santos Vos louve,

Por todos os séculos dos séculos.

Amém.

ou

Eis-me aqui á meu bom e Santíssimo Jesus

que aqui estais pela Vossa Santíssima presença.

A Vós rogo com o mais vivo fervor

para que imprimais no meu coração

vivos sentimentos de Fé, Esperança e Caridade.

Doem-me os meus pecados

e faço propósito firme de no Vos tomar a ofender mais.

Tudo quanto eu medito com todo o amor,

com toda a compaixão como o Santo tem por Vós ó meu Jesus. Disse o Santo profeta David: “Trespassaram as minhas mãos e os meus pós e contaram todos os meus ossos. Pai-Nosso...; Avó-Maria...; Glória...

Depois do Terço

Senhor aceita estas orações. São poucachinhas e mal rezadas, aceita-as por muitas e bem rezadas.

Bendito e Louvado seja o Santíssimo Sacramento do altar, (3 vezes)

Da puríssima da Conceição da Virgem Maria, Senhora Nossa, concebida em graça sem mácula do pecado original, desde o primeiro instante do seu ser. Amém.

Acto de Fé

Creio meu Deus firmemente que Vós sois a Suma Verdade.

Creio que sois trino e um, criador e regenerador que dais o prémio e a glória aos bons e o castigo aos maus.

Creio que o Filho de Deus encarnou, nasceu, morreu e ressuscitou.

Creio no Santíssimo Sacramento da Eucaristia onde adoro o Santíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo tão real e tão presente como está nos céus.

Creio em todos os mais sacramentos que a Santa Igreja crê e tem para se crer; nesta fé quero viver e morrer e salvar a minha alma.

Acto de Esperança

Espero meu Deus que me haveis de revelar e salvar pelo Santíssimo merecimento do Nosso Senhor. Farei da minha parte o que devo (...).

Acto de Contrição

Pesa-me meu Deus e Senhor de todo o coração Vos ter ofendido por Seres Vós Quem Sois, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas. Ajudai-me, com os auxílios da Vossa Divina Graça, a nunca mais Vos tomar a ofender. Pelos pecados que contra Vós tenho cometido peço perdão que espero alcançar pela Vossa Infinita Misericórdia.

Confissão

Eu pecador me confesso a Deus Pai Todo Poderoso e à Bem-aventurada Santa Virgem Maria, ao Bem-aventurado S. Miguel Arcanjo, a S. João Baptista, aos Santos Apóstolos, a S. Pedro e S. Paulo e a todos os Santos que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha tão grande culpa. Peço minha mãe Aventurada Santa Virgem Maria, ao Bem-aventurado S. Miguel Arcanjo, ao Bem-aventurado S. João Baptista, aos Santos Apóstolos, S. Pedro e S. Paulo e a todos os Santos que roguem a Deus Nosso Pai por mim e pelo perdão das minhas culpas. Amém.

Durante a Manhã

Abri Senhor os meus lábios; a minha língua abrace os Vossos louvores; meus olhos saúdem-Vos. Socorrei-nos e salvai-nos e vinde sem demora. Glória seja dada ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio seja agora e sempre por todos os séculos dos séculos. Amém.

À Santíssima Virgem

A Santíssima Virgem puríssima, sem grau de beleza sensual, favoreça em mim as virtudes e a Santa Continência, fazei-nos vir e louvar e seja aclamada assim: Virgem Sagrada dai-me fortaleza contra os Vossos e nossos inimigos. O Virgem Santíssima que pela Vossa virginal pureza Imaculada Conceição levarei a minha alma e o meu corpo e arrede a tentação. Avé-Maria...

Para afugentar o inimigo (demónio) de uma pessoa

Reza-se o Credo antigo: “Creio em Deus Pai Todo Poderoso Criador do Céu e da Terra. Creio em Jesus Cristo e só Seu filho Nosso Senhor, O qual foi concebido por obra e graça do Espírito Santo. Nasceu de Maria a Virgem; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi por nós crucificado, morto e sepultado. Desceu aos infernos e ao terceiro dia ressuscitou. Subiu aos Céus e está sentado á mão direita de Deus Pai Todo Poderoso. Ele há-de vir e julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo e na Sua Santa Igreja Católica, na comunicação dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna para sempre. Amém.”

Depois reza-se a seguinte oração: “S. Miguel Arcanjo, defendei-me neste combate. Sede a minha protecção contra as maldades e ciladas do demónio. Em espírito sobre ele em pé com espírito pela milícia Celeste, por este poder Divino, precipitai no inferno a Satanás com os outros espíritos malignos que vagueiam por todo o mundo para a perdição das almas. Assim seja.

Explicação Popular de alguns Aspectos Religiosos

Onde está Deus?

Deus está no Céu por existência, na terra por imenso e no inferno pela Sua infinita justiça.

O que quer dizer o vestuário que o padre usa quando está no altar?

A casula representa o peso do madeiro que Jesus levou para o Calvário. A alva representa o farrapo de púrpura em que vestiram a Deus Nosso Senhor e tomaram a Deus Nosso Senhor como louco. O cordão representa a corda com que O trouxeram de arrasto.

Que quer dizer o elevar da Hóstia?

Significa quando pregaram a Deus na cruz e no fim d’Ele pregado tinham um buraco na rocha para meterem a cruz e deixaram cair para dentro dele repentinamente o Santíssimo Corpo. Ao estremecer os cravos rasgaram mais carne.

Que quer dizer a elevação do Cálice?

O Cálice representa quando o soldado meteu a lança no lado do Senhor e tirou a última gota de sangue.

Porque é que se fala primeiro no sangue e só depois na água?

O sacerdote deita o vinho no cálice e umas gotas de água. O vinho representa o sangue de Deus Nosso Senhor e a água representa a água que Jesus deitou pela chaga  do lado por não ter mais sangue. Fala-se primeiro no sangue porque o sacerdote não deitou ainda nada da partícula no cálice

Orações Profanas

Oração da Uva: Santa uva que estais na parreira, sejais purificada sem enxofre. Venha a nós o vosso líquido, três litros a cada hora, e seja sempre regulado em nossas casas, assim como nas tabernas e livrai-nos Senhor dos perigos na hora da morte. Amém.

Ritos profanos ao beber um copo de vinho: E vai acima, e vai a baixo e vai ao centro e, se eu não me enganar, vai pela goela a dentro.

E vai a cima, o vai ao centro e vai a baixo e, se eu não me enganar, vai pela goela a baixo.

V -Adivinhas tradicionais

De entre as muitas adivinhas populares que existem nesta Freguesia apresenta-mos algumas:

“Verde foi o meu nascimento,

Mas de luto me vesti;

E, para dar luz ao mundo,

Mil tormentos padeci.”

Solução: Azeitona.

“À meia-noite se levanta o francês.

Sabe das horas, não sabe do mês.

Tem uma serra, não é carpinteiro;

Tem um picão, não é pedreiro;

Usa esporas, não é cavaleiro;

Escava no chão e não acha dinheiro.”

Solução: Galo.

“Andava um rebanho de pombas

E passou um gavião E disse:

-Deus as salve cem pombas.

E elas responderam:

-Cem pombas não somos nós.

Nós, outras tantas como nós,

E a quarta parte de nós

E contigo gavião

Cem pombas são.”

Solução: 44 Pombas.

“Dez e dez não são vinte;

E com cinquenta faz onze.”

Solução: Dez horas e dez minutos com cinquenta minutos fazem onze horas.

“Qual a coisa qual ela

Que, mal cai no chão,

Fica amarela.

Solução: Ovo.

“Qual a coisa qual ela

Que tem uma roda e não desanda

E três pernas e no anda.”

Solução: Trempe.

VI-Ditados populares e Meteorologia

A sabedoria popular está grandemente representada naquilo a que chamamos ditados populares ou provérbios. Eis alguns dos mais frequentemente usados nesta Freguesia:

-Quem faz um cesto, faz um cento se lhe derem verga e tempo;

-Casa roubada, trancas à porta;

-Amigos, amigos, negócios à parte;

-Uma maca podre apodrece um cento;

-Em casa de ferreiro, espeto de pau;

-Migalhas também são pão;

-Grão a grão enche a galinha o papo;

-Quem foge também se apanha;

-Depois de graças dadas, goelas molhadas;

-Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo;;

-Gato escaldado de água fria tem medo;

-A cada preto sardinha é meia;

-Vale mais uma pomba na mão que duas a voar;

-Ovelha que borrega bocado que perde;

-Na casa deste “home” quem não trabalha não come;

-P’ra baixo todos santos ajudam, p’ra cima é só um e coxo;

-Dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho;

-Dia de S. Lourenço vai à vinha e enche o lenço;

-Dia de S. Tiago vai à vinha e apalpa o bago;

-Dia de S. Tiago pinta o bago;

-Hão peças a morte a Deus, nem a chuva a S. Mateus;

-Não guardes para amanha o que podes fazer hoje;

-O que não se faz em dia de Santa Maria faz-se no outro dia;

-Quem dá aos pobres empresta a Deus;

-Mocidade ociosa traz velhice vergonhosa;

-O filho que amarga os pais jamais conta com ventura;

-Para escolher o cão vêem-se os cabelos grandes do queixo:

-Se tem um, não o vendas por dinheiro nenhum;

-Se tem dois, não o dês pelo dinheiro dos bois;

-Se tem três, não o vendas nem o dês;

-Se tem quatro, ou o dou ou o mato;

-Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro. De vinte e oito só há um. E os outros têm trinta um;

-A vinte de Janeiro sobe aquele outeiro;

-Se vires trovejar, pôe-te a cantar;

-Se vires verdejar, pôe-te a chorar;

-Natal ao lar, Páscoa a assoalhar;

-Junta-te aos bons serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles;

-De noite todos os gatos são pardos;

-Vão-se os anéis e fiquem-se os dedos;

-Quando a esmola é grande até o pobre se admira;

-Água mole em pedra dura tanto bate até que fura;

-Não há mas sem senão;

-A cavalo dado não se olham os dentes;

-Mais vale tarde que nunca;

-Há males que vêm por bem;

-Nem tudo o que luz é ouro;

-De pequenino é que torce o pepino;

-Homem prevenido vale por dois;

-Quem te avisa teu amigo é;

-Quem com ferros mata, com ferros morre;

-Quem vai guerra dá e leva;

-Quem estraga velho paga novo;

-A água tudo lava menos as más línguas;

-O saber não ocupa lugar;

-Diz-me com quem andas e eu dir-te-ei quem és;

-Ninguém é profeta na sua terra;

-Candeia que vai frente alumia duas vezes;

-Guarda que comer, não guardes que fazer;

-A palavras loucas, orelhas moucas;

-Patrão fora dia santo na loja;

-Gaivotas em terra, tempestade no mar;

-A verdade é como o azeite: vem sempre “ao de cima”;

-Não contar com o ovo no cú da galinha;

-Chuva de verão não chega ao chão;

-Cão que ladra não morde;

-Vozes de burro não chegam ao céu;

-Não te rias do teu vizinho que o teu mal vem a caminho;

-Não há pior cego que aquele que não quer ver;

-Em terra de cegos quem tem um olho é rei;

-Quem tem unhas é que toca guitarra;

-Quem tem fome cardos come;

-As conversas são como as cerejas;

-Deus escreve por linhas tortas;

-O que mais custa é o que mais vale;

-Ano de missão, ano de perdição;

-Quem cala consente;

-Orelha de gato, pé de cão e cu de gente nunca foi quente;

-Quem tem cu tem medo;

-Burro que geme carga que não teme;

-Pedros nem tê-los nem vê-los mas sempre é bom na terra havê-los;

-Quando alguns não querem estão outros desertos;

-Três para levar um burro é que vão bem: um carrega, outro aperta e outro vê se a carga vai bem;

-Quando as comadres se zangam descobrem-se as verdades;

-Fui a casa do meu vizinho e envergonhei-me; fui para minha casa e remediei-me;

-Ou gozarás breve tempo e sofrerás toda a eternidade, ou sofrerás breve tempo e gozarás toda a eternidade;

-Em abril queima a velha o carro e o carril; o resto que ficou ainda em maio o queimou; ficou um bocado do tamanho de um punho; e queimou-o no mês de junho.

-Em abril ainda a velha queimou o carro e o carril; o resto que ficou ainda em maio o queimou; ficou um cocão; e queimou-o no mês de S. João;

-Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer;

-Quem não guarda água nem lenha não guarda nada que tenha;

-Até no mais fino pano cai a nódoa;

-Terra onde fores ter faz como vires fazer;

-Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

Nisto de provérbios e sabedoria popular há um parte dedicada particularmente à Meteorologia. Hoje estamos muito habituados a conhecer cada dia a previsão meteorológica que nos é fornecida pelo Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, e isto faz parte da linguagem do dia-a-dia tendo sido criadas expressões como:“A televisão dá chuva ou sol?”, “O que é que eles dão para amanhã?”, etc.

Devido à utilização de avançados meios técnicos existentes nos dias de hoje, as previsões coincidem, em geral, com a realidade, mas antes de existir qualquer instituição ligada à previsão do tempo, já o homem sentia a necessidade de saber o tempo que ia fazer no dia seguinte, assim com a tradição e com a experiência de cada um, o homem foi arranjando meios de prever o tempo.

E que meios eram esses? - perguntamos nós, que já não somos desse tempo ou que não conhecemos essas tradições. Para tentar dar resposta a esta questão fizemos uma pequena recolho das tradições sobre a previsão do tempo existentes na região onde fomos criados.

Assim, ao observarem o comportamento de alguns animais, os antigos criaram ditados populares e tradições. Por exemplo, dizia-se: “quando o mocho pia, chove amanhã ou outro dia”; “formiga de asa adivinha trovoada”. Quanto às galinhas dizia-se quando cantavam era sinal de bom tempo, e quando estendiam a asa era sinal de trovoada. Quanto aos cavalos dizia-se: “Se o cavalo rinchão rinchar e se passar um cavalo rinchão a caminhar para o lado do mar a fazer barulho, à hora que ele passar é a hora a que começa a chover. Não só o cavalo mas também as pegas, os corvos. Quando passarem a fazer barulho é à hora que começa a chover.”

Quanto ao sol e à lua, também acerca destes há tradições e assim dizia-se que quando o sol perdia a luz antes de se pôr era sinal de vento no outro dia; quando o sol se punha vermelho era sinal de calor para os dias seguintes. Ainda sobre este tema há provérbios como sendo: “Quando chove e faz sol é sinal de outra maior”; “Quando há círculo na lua chuva alguma, e quando há círculo no sol chuva nenhuma”. Quanto ao circulo da dizia-se também que: “Círculo perto, chuva longe; círculo longe chuva perto.” Ainda quanto à lua: “Lua nova trovejada trinta dias é molhada, e se chove e venta chega até aos quarenta”, “Em Janeiro sobe aquele outeiro: se vires trovejar põe-te a cantar, se vires verdejar põe-te a chorar”. “Março, Marçagão de manhã inverno de tarde verão.” Além destes há outros provérbios e tradições acerca do tempo que fará época seguinte do ano e assim temos por exemplo: “Natal no lar, Páscoa a assolhar”; “Como fica o vento na passagem do ano, assim fica todo o ano”.

Dizia-se também que quando retiramos uma panela do lume e substância negra que a cobre fica a brilhar é sinal de vento. Há ainda a tradição das chaves e contra-chaves que são os períodos compreendidos respectivamente entre 12 e 24 de Dezembro e entre 26 de Dezembro e 6 de Janeiro. Segundo os antigos o tempo que fazia em cada um dos dias do primeiro período de tempo correspondia ao tempo que faria em cada um dos meses do ano seguinte começando em Janeiro e terminando em Dezembro. O período das chamadas contra-chaves o tempo de cada dia correspondia igualmente ao tempo que faria num mês do ano seguinte, mas agora começando em Dezembro e terminando em Janeiro.

Os próprios que sabem estes provérbios e tradições dizem que hoje já no acontece assim, que o tempo está muito mudado, no entanto, ficamos a conhecer um pouco mais dos tradições populares.

VII - Receitas tradicionais

Com o tempo todas as coisas evoluem. Para não fugir à regra também as formas de cozinhar e de conservar os alimentos tem evoluído.

De seguida apresentaremos algumas recitas tradicionais divididas em dois ramos:

a) Culinária

O alimento tradicional é uma sopa feita à base de batatas,couves e feijões,mas há outras receitas tradicionais tais como:

Broa de milho

Trazia-se a farinha do moinho, (o moleiro trazia a farinha e levava o milho) depois peneirava-se a farinha, era escaldada com água a ferver e levava um pouco de sal. Amassava-se e levava fermento (este era um bocado de massa que se tinha guardado da semana anterior com sal para não se estragar - era chamado crescente). O fermento era preparado com água quente, isto é, era amassado para mais tarde se juntar à massa.

A massa, depois de escaldada, era amassada e,estando quase pronta, levava o fermento, acabando de se amassar e deixava-se a levedar (± trinta minutos de repouso).

Quando uma pessoa estava muito tempo sem cozer broa ia pedir fermento a um vizinho.

Depois da massa amassada aquecia-se o forno e aí se colocava a mesma deixando-a cozer. A quantidade e a periodicidade do cozer da broa eram condicionadas pelo número das pessoas da casa.

Papas do Abóbora

Descasca-se a abóbora, corta-se aos bocados e lava-se com água a ferver. Põe-se a cozer com sal e azeite durante algum tempo de modo a que os bocados de abóbora se derretam facilmente com a colher de pau contra as paredes da panela. Depois de derretida o abóbora põe-se farinha de milho, pouco a pouco, mexendo o caldo para não entorroar. Toda a operação demora cerca de uma hora.

Depois de cozidas as papas tiram-se para os pratos. Aí é-lhes adicionado açúcar, quando quentes,ou azeite,quando frias. Geralmente este prato tradicional é acompanhado com sardinha assada.

Bolos de Sangue

Ingredientes: farinha de milho, farinha de trigo, açúcar, caldo da cozedura das morcelas, canela, erva-doce e sangue de porco.

Modo de preparação: escalda-se a farinha de milho com o caldo da cozedura das morcelas. Adiciona-se a farinha de trigo, o açúcar, a canela, a erva-doce e o sangue (este, depois de ser tirado do animal, é mexido até arrefecer e leva sal e vinagre logo depois de ser tirado). A massa é amassada ficando um pouco rija. Os bolos são feitos à mão e põem-se no tacho que não pode parar de ferver. Deixa-se cozer e quando nos parecer que que estão cozidos, tira-se um e corta-se a meio para ver se os bolos já estão realmente cozidos. Depois de cozidos tiram-se e podem comer-se durante alguns dias.

Enchidos

Negritos - A carne mais ensanguentada do porco é migada e leva os temperos (sal, colorau, alhos, sangue e vinho). Enchem-se as tripas mais grossas e cozem-se. Põem-se no fumeiro durante quinze dias e guardam-se na salgadeira.

Chouriças - A carne do porco com mais febra é migada e leva os seguintes tempero: sal, colorau, alhos e vinho. Depois de tudo bem misturado deixa-se repousar durante três a quatro dias num alguidar acachado. E mexido todos os dias. Depois é cheia e fica no fumeiro que podia, nesta altura, ter fumo de ramos verdes. Antigamente,as chouriças eram guardadas no fumeiro mas também havia quem as guardasse em azeite.

Conservação da carne

A carne era geralmente salgada. Antes de ir para o sal levava vinho. Quando se salgava a carne apertava-se bem esta contra o sal para que este penetrasse mais facilmente na carne.

Os presuntos estavam mais de um mês no sal, depois eram lavados e postos a secar ao sol. Depois de secos eram passados com o molho que era feito de alho, colorau, pirnutita, vinho ou vinagre e azeite ou óleo. O presunto era curado no fumeiro e aí permanecia até ser consumido.

Torresmos

Os torresmos eram feitos da carne mais gorda, geralmente do toucinho.

A carne é cortada a bocados e posta no tacho com um bocado de banha previamente colocada no tacho para fazer molho. Enquanto se cozem, o lume tem que estar brando. Enquanto isso ia-se mexendo a carne e depois desta formar molho abundante tiram-se do tacho ficando neste o molho - chamado manteiga. Esta manteiga era utilizada para fazer sopa.

Broa doce

Todo o processo de preparação é igual ao da “broa de milho”. Para este tipo de broa adiciona-se mais farinha de trigo e leva condimentos doces (canela, erva-doce, passas de uva, nozes, frutos secos e cascas de limão). Estes condimentos juntam-se ao resto da massa quando esta está a ser amassada.

Morcelas com Farinha

Ingredientes: sangue, farinha, erva-doce e canela.

Juntam-se todos os ingredientes,amassam-se são cozidos e põem-se no fumeiro sendo consumidos do directamente do mesmo.

Espernegada (Esparregado)

Ingredientes: farinha e nabos cortados miudinhos. Cozem-se os nabos e põe-se farinha até ficar com o caldo espesso. Serve-se com azeite

Abóbora com feijão frade

Descasca-se a abóbora, corta-se em bocados (± cubos) e lava-se com égua a ferver. Leva-se a cozer mas só um bocadinho para a abóbora não se derreter. Junta-se o feijão, previamente cozido, a algumas batatas.

Se se deixar cozer mais tempo o caldo fica amarelo e chama-se ‘sopa dourada’ (N.B. As receitas de abóbora são feitas de abóbora menina ou porqueira bem madura)

Cogumelos

Escolhem-se os cogumelos que têm um anel, lavam-se, partem-se aos bocadinhos e espremem-se bem. Depois de espremidos põem-se na frigideira com cebola. Deixam-se estar na frigideira até absorverem a água por eles deitada quando foram postos na mesma.

Carne de Vinho

Ingredientes: bofes (pulmões), coração, toucinho mais miúdo (beiços).

Corta-se a carne aos pedaços e põe-se no vinho. Dentro do recipiente leva bastantes alhos e sal. Permanece no recipiente entre quatro a oito dias. Quando passa de urna semana muda-se o vinho.

Para cozer a carne,esta é tirada do vinho e posta numa panela com égua a ferver deixando cozer até a carne estar bem cozida.

Batatas com pele

Lavam-se as batatas, que são das novas, isto é, foram recentemente tiradas da terra, depois de lavadas, são cortadas em metades iguais. Põem-se na panela e deita-se-lhe sal que baste. Depois de cozidas tiram-se para arrefecerem e depois são descascadas.

São acompanhadas,geralmente,com sardinha assada.

Migas Salgueiras

Ingredientes: merendeira quente, açúcar e vinho.

Miga-se a merendeira ainda quente para um recipiente. Deita-se algum açúcar por cima, consoante o gosto, e derrama-se vinho. Come-se quente.

b) Medecina

Chá de

Erva cidreira - utilizado para o estômago;

S.Roberto - utilizado para o estômago;

Morcela - utilizado para abrir o apetite;

Flor de sabugo o de laranjeira - para curar a gripe;

Folhas de laranjeira e de limoeiro - para curar a gripe;

Casca de limão - para curar a gripe e constipações.

Outras receitas-

• Comer marmelos assados no forno ou no borralho para a diarreia;

• Pôr algodão a arder em cima da pele e emborcar o mesmo com um copo para curar as pneumonias e sangue pisado;

• Pôr sanguessugas para chupar o sangue pisado. Cercavam-se em volta da nódoa e elas mordiam e chupavam o sangue; fazia-se o mesmo processo ao pó das orelhas para curar as tromboses;

• Deitar sobre brasas ‘vivas’ algumas colheres de açúcar e inspirar o fumo e de seguida beber vinho com mel ou açúcar bem quentes para curar as constipações;

• Ferver alecrim em vinho e de seguida beber o vinho para as constipações;

• Beber duas colheres de mel dissolvidas em vinho quente também para as constipações;

• Esfregar com aguardente e farinha de mostarda nas costas, peito, pernas e braços para as constipações e para as pneumonias.

c) A matança do porco.

Este assunto da matança do porco merece um capítulo para a sua descrição.

Assim,vamos passar a descrever como era e como, em parte, ainda á feita a matança do porco por estes lados.

Para matar o animal era utilizado um sovelão e, depois da morte, o porco era chamuscado. Nesta operação utilizavam-se carquejas a arder em cima do animal o que lhe queimavam o pêlo. De seguida o porco era lavado, pendurado e esfolado.

Para matar o porco na época mais conveniente escolhia-se o Inverno mais precisamente a altura do Natal ou o Ano Novo (entre Dezembro e Fevereiro) A carne era salgada ou transformada em enchidos que se conservavam no fumeiro assim como os presuntos que depois de uma breve salga, podiam ser também curados no fumeiro e comidos.

Geralmente quando se matava o porco convidava-se um rancho de gente (familiares e amigos) e era um dia de grande festa.

IX - Artesanato

Quando falamos de artesanato na nossa terra parece, primeira visto,que ou que ele desapareceu com o progresso e com o correr dos tempos. A realidade não é assim nem por sombras. Prova disto á a exposição que se realizou nesta freguesia em Novembro de 1991.

Segundo a organização a principio parecia nada haver mas os objectos começaram aparecer e surgiram em tão grande número que foram suficientes para uma boa representação de cada lugar e para encher por completo a sala da exposição.

Apareceram trabalhos vindos da tradição mas apareceram outros fruto da originalidade e da criatividade de cada um.

Assim,apareceram colchas, toalhas, guardanapos...; em tapeçaria apareceram tapetes de parede bordados, cabeceiras com tapeçaria e com bordados, rodilhas...; apareceram camisas feitas à mão, cestos e cestas de verga, flores de papel, garrafas decoradas com pinturas...; de madeira apareceram “banquitos”, cadeiras de vários tamanhos e modelos, caixas de ferramenta (para decorar), tabuleiros, barcos, representações de monumentos (torre de Belém), um candeeiro articulado, as próprias molduras de alguns quadros; uma casa e um barco de fósforos.

Revelaram-se também nesta exposição os dotes artísticos no campo da pintura. Assim apareceram quadros desde a representação de formas geométricas abstractas à representação de cenas reais da vida e à representação do próprio Cristo, este um bocado no estilo cubista.

Há ainda a referir os cestos de verga e os canos de lã para as pernas das senhoras. Assim como o fabrico de botas de trabalho que já fez na Freguesia.

X - Tempos livres ontem e hoje

Hoje os tempos livres são ocupados a ver televisão,indo as festas ou romarias e, mais raramente,conversando com os vizinhos ou familiares. Mas como era antes de haver electricidade, antes da televisão ocupar os serões o antes de haver tantas festas e divertimentos como há hoje?

Foi o que tentamos saber um pouco e que vamos expor neste pequeno texto.

De inverno, quando as noites eram mais longas, grupos de pessoas juntavam-se ao serão em casa de alguém para, enquanto conversavam e partilhavam as alegrias e as tristezas da vida, irem rasgando roupa velha para fazer mantas retalheiras, ou irem dobando o algodão para fazer também mantas.

Se por acaso havia alguém na terra que vendia pinhões algumas pessoas do lugar juntavam-se em casa dessa pessoa para a ajudarem a britar os pinhões. Havia os que, ou por não poderem ou por não querem, não ajudavam e desculpavam-se dizendo a seguinte frase: “Quem recebe os tostões que brite os pinhões”.

No verão os focos de convívio e ocupação dos tempos livres eram as desfolhadas ou descamisadas em que, depois de se juntarem para descamisar o milho, os mais jovens se divertiam cantando, dançando ao som de instrumentos tocados pelos próprios ou jogando qualquer jogo tradicional como o do anel, o da palmada ou do chinelo.

Havia, e há ainda hoje, outras actividades que ocupavam os tempos livres como sendo a caça e certos jogos como as cartas, o chinquilho e outros.

Vamos agora apresentar alguns desses jogos explicando um pouco como eram jogados.

Jogo do botão: com um botão e um palmo de linha construía-se um brinquedo interessante. Passava-se a linha por dois buracos opostos do boto e em seguida atavam-se as extremidades da linha. Depois era embrulhar o botão pegando em duas partes da linha, tendo o botão no meio e fazendo desandar. Chegando a determinada altura puxava-se e encolhia-se alternadamente a linha conseguindo assim que o botão desandasse a uma velocidade espantosa.

Jogo das cinco pedrinhas: com as cinco pedrinhas na palma da mão, cada jogador atira-as ao ar e apanha-as com as costas da mão; volta a atirá-las para as apanhar desta vez com a palma da mão. Começa o jogo quem ficar com mais pedras na mão. O primeiro jogador coloca quatro pedrinhas no chão e, de cada vez que atira ao ar a que tem na mão, procura apanhar uma das pedrinhas com a mesma mão. Se o jogador consegue apanhar todas as pedrinhas do chão sem nunca deixar cair aquela que atira ao ar,continua a jogar, apanhando, agora, duas de cada vez; se conseguir, prossegue o jogo, tentando apanhar as quatro pedrinhas de uma só vez.

Jogo das escondidas:depois de reunido o grupo dos participantes escolhe-se um que fica a contar até cinquenta enquanto os outros se escondem. Depois de contar vai procurar os que estão escondidos. Estes têm que malhar no local onde o outro esteve a contar e caso o que esteve a contar descubra alguém e o malhe antes dele malhar é esse que fica a amochar na vez seguinte. E assim sucessivamente...

Cabra cega: estando um grupo reunido vendam-se os olhos a um elemento do grupo. Este tem que, de olhos vendados, procurar os outros e se conseguir tocar nalgum deles esse será o próximo a ficar com os olhos vendados repetindo-se todo o processo.

Jogo do anel: uma pessoa tem um anel entre as mos e vai passar com as suas mãos entre as de todos os participantes, deixando o anel a um destes. Em seguida pergunta a alguém quem tem o anel. Este se responder bem irá repetir o processo, se não o que dou o anel dá-lhe uma chapada e diz: “Por causa de X (aquele que ele disse ter o anel)levas tu.” Irá agora o que deu a chapada repetir todo o processo até que um responda certo. Esse irá então dar o anel e o jogo prossegue.

XI - Costumes

Há entre o povo certos costumes que são por vezes originais cuja realização se vai repetindo de geração em geração,de ano a ano etc.

Eis alguns desses costumes:

Pedir para as Almas

Num dos Domingos da Quaresma reúnem-se, a hora e no local determinado, quinze a vinte pessoas desde rapazes e homens e até garotos e vão de casa em casa pedir para as almas do purgatório.

Há o chamado depositário que é aquele que está responsável por convidar as pessoas, marcar a hora e o local e levar o dinheiro das esmolas ao destino.

Em frente de cada porta reza-se e canta-se. Anteriormente havia um canto relativamente maior,do qual hoje só se cantam alguns extractos.

Eis o cântico tradicional:

A – À porta das Almas Santas

Bate Deus a toda a hora

B - As almas lhe responderam

Ó meu Deus que quereis agora.

A - Quero que venhas comigo

Gozar da eterna glória.

B - O meu Deus,O meu Senhor

Ai Jesus quem se lá vira.

A - Na companhia dos Anjos

Filhos da Virgem fiaria.

B – Ó Virgem da Piedade

A devoção nos obriga

A - Rezar pelas Almas Santas

Rezemos com alegria.

B - Atormentadas de dor

Continuam a padecer.

A - Assim são as Almas Santas

No Purgatório a arder.

B - Homens, mulheres, meninos

Deste povo auditório.

A - Dai a esmola se poderdes

Às almas do Purgatório.

B - Dai a esmola se poderdes

Se com devoção a dais

A - Vós lá tendes vossas mães

Vossos filhos,vossos pais.

B - Como Lázaro vos pede

Que lhe deis as fazendas

A - Que lhe deis as migalhas

Que crescem das vossas mesas.

B - Ajoelhemos por terra

Nós não somos os primeiros

A - Vem na nossa companhia

Jesus Cristo verdadeiro

B - Jesus Cristo verdadeiro

Companheiro do Senhor

A - Acompanhai a nossa alma

Quando deste mundo for.

B - Quando deste mundo for

Desta vida se há-de apartar.

A - Quem boas obras fizer

Lá irá para bom lugar

B - Esses bens que possuires

Reparti-os em vossas vidas

A - Lá os achareis na Glória

Quando fordes à partida.

B - As esmolas que vós dais

Não cuideis que as gastemos

A - São para missas das Almas

Devoções que nós tomamos

B - Das almas do Purgatório

E bem que nos lembremos

A - Nós havemos de morrer

Sabe Deus para onde iremos.

B - O Virgem de Nossa Senhora

Nos aceite estas passadas

A - Pois que nós andemos dando

Par remédio das Almas

B - O Almas Santas benditas

Peçam a Nosso Senhor

A - Que esta nossa oração

Seja em vosso louvor

B - Em vosso louvor será

E em vosso louvor seria

A - Pelas almas ai-Nossd

Por elas ‘Avé-Maria’

(Aqui reza-se)

B - Vós que deste a esmola

Deste-a com devoção

A - Dos Anjos tereis o prémio

E lá de Deus a Salvação.

B - A Divina Salvação

Só Deus é que a pode dar

A - Ele é o Salvador do F’iundo

Que a todos pode salvar

B - Já o Sacrário está aberto

Todo dourado por fora

A - Já podemos adorar

Ao bom Jesus,Rei da Glória.

B - Já o Sacrário está aberto

Já o Senhor lá está dentro.

A - Já podemos adorar

O Divino Sacramento.

B - Ao Divino Sacramento

Que palavra tão alegre

A - Bem ditosa da nossa alma

Se ela em graça o recebe

13 - O que Sacrário tão lindo

Oiro tão bem empregado

A - Onde esteve o bom Jesus

Nove meses consagrado

B - Vosso Filho amoroso

Que por nós morreu na Cruz

A - Peço que nos leve à glória

Para sempre Amém Jesus.

Merendeiras

Existem no lugar da Marinha umas alminhas dedicadas à Senhora da Luz que foram mandadas construir, há aproximadamente oitenta anos, por uma senhora chamada Filomena. Esta, por promessa ou devoção foi de joelhos desde casa até esse nicho e rezou ai o terço com alguns acompanhantes, aos quais ofereceu merendeiras. Daí em diante, todos os anos, se rezou aí o terço e se foram dando as chamadas merendeiras a todos os participantes. Ainda hoje se mantém esta tradição.

Noite de S. João

Durante o dia de S. João juntava-se toda a mocidade do lugar e lavavam a fonte e enfeitavam-na, fazendo até um arco de verdura em frente desta. À noite faziam uma fogueira e à volta dela novos e menos novos, passavam algum tempo de divertimento contando, falando e comendo tremoços.

Caiar as casas

Como antigamente as casas eram caiadas era necessário renovar a pintura da cal. Assim,todos os anos por altura da Páscoa, as pessoas caiavam a casa com o objectivo de a embelezarem especialmente nessa quadra festiva e muito propícia a tais acções.

Os Mantilheiros

Os mantilheiros eram rapazes que, nas noites de Verão, procuravam as escamisadas para se divertirem e para procurarem as raparigas. Iam emantilhados, quer dizer, levavam uma manta, um lençol ou um casaco velho embrulhado na cara e por vezes no corpo todo com o objectivo de serem irreconhecíveis, levando sempre um pau.

Ao chegarem a uma escamisada, os mantilheiros improvisavam representações cómicas ou brincadeiras, faziam rir o pessoal e ficavam se no grupo houvesse alguma moça que lhes interessasse. Se não, continuavam caminho, repetindo toda a cena noutra escamisada. Eles eram em resumo a maior animação das escamisadas.

Casamento

Os convidados do noivo, no dia do casamento, deslocavam-se a pé de casa deste para a casa da noiva. No caminho, se passavam à frente da casa de uma pessoa convidada esta devia ter à frente da porta o chamado ‘arco’ que era uma mesa, com arco ou sem ele, e com comida e bebida para os convidados. No final da paragem que ali se fazia, o grupo dos convidados do noivo dava algum dinheiro para a ajuda na despesa. Chegados a casa da noiva, o noivo ia pedir a noiva aos pais desta e depois todos, convidados e noivos, se dirigiam para o local do casamento.

Depois da festa religiosa, ao saírem os noivos do local do casamento, os padrinhos e o povo lançavam amêndoas para cima destes em sinal de festa. Esta tradição foi mais tarde substituída por uma outra semelhante e com o mesmo sentido que á lançar, em vez de amêndoas, arroz. A esta manifestação de festa seguiam-se duas festas: uma em casa dos pais do noivo com os convidados deste e outra em casa dos pais da noiva com os convidados desta.

Só à noite é que os recém-casados se juntavam e se dirigiam à nova casa que iam habitar. Ao chegarem, o noivo, em forma de ritual, proferia umas palavras com este sentido: “Toma lá esta chave que é para abrires a casa. Tomas conta dela (chave) para abrires a porta sempre quando eu vier.”

Então a noiva abria a casa com a chave que recebera do marido e a casa era mostrada aos convidados.

Mas, antes do casamento, havia o namoro. Este era por vezes demorado e ‘religioso’. Um rapaz qualquer que começasse a namorar uma rapariga, nos primeiros tempos, fazia-o só ao Domingo à tarde até os pais chamarem a filha para rezar o terço indo ele embora. Passado algum tempo, quando o rapaz tinha já merecido a confiança por parte da família da rapariga, este era convidado a entrar em casa,  rezar o terço à noite com a família e era-lhe oferecido o jantar. Mais tarde o namoro começou a ser também quarta-feira à noite

Avé-Marias

Hoje já não tanto, mas antigamente as pessoas que andavam a trabalhar nos campos nem sempre tinham relógio. Estas pessoas eram, na maior parte das vezes, cristãs piedosas e então guiavam-se pelo toque das Avé-Marias, isto é, nas capelas tocava-se, em algumas ainda tocam, as Avé-Marias ao meio-dia e ao fim da tarde, e as pessoas paravam para rezar e finalizavam nessa altura os trabalhos no campo.

Folar

No dia de Páscoa os afilhados costumam fazer uma visita especial aos padrinhos dos quais esperam algo em troca: neste dia os padrinhos costumam recompensar a visita dos seus afilhados ou com um ‘folar’ (bolo com um ovo cozido no meio) ou com amêndoas. Acompanhando esta recompensa vem geralmente algum dinheiro consoante as possibilidades e o carácter dos padrinhos.

Visita Pascal

Já é bastante antigo o costume de, depois da Páscoa, a cada casa (família) ser anunciada a ressurreição do Jesus Cristo. Mas, além deste aspecto, a visita pascal serve desde há muito para dar o chamado ‘folar’ ao prior. Assim, este ia de casa em casa anunciando o Boa Nova do Cristo Ressuscitado e cada família dava-lha ‘em troca’ dinheiro ou géneros.

Nesta Freguesia este costume tem sofrido ligeiras alterações. Actualmente há a visita às famílias mas o prior não recebe nada aí. No final, há uma missa e um convívio para as pessoas do lugar. Quem quiser dar algo para ajuda da manutenção do pároco fá-lo no ofertório da missa.

Presépio

Por altura do Natal quase todas as casas têm o seu presépio. Uns simples outros complexos; uns pobres outros mais ricos mas todos têm de comum o mesmo significado. Geralmente na altura do Natal os adultos andam muito atarefados e então quem incentiva e faz muitas vezes os presépios são os menos crescidos.

Também os centros de culto costumam ter o sou presépio. Na igreja ressurgiu um antigo costume que esteve morto bastantes anos e que é o de construir um presépio móvel.

Emprestar Broa

As famílias não coziam broa todos os dias mas descobriram que com amizade podiam ter broa fresca todos os dias. Para tal, combinavam e nenhuma família cozia broa no mesmo dia. Quando alguém cozia, distribuía a broa fresca por todos e assim todos tinham sempre broa fresca, “pagando” uns aos outros. Daqui surgiu a expressão “tornar as broas” significa “pagar” favores.

Uma junta de vacas à sociedade

Quando o trabalho agrícola dependia em grande parto do trabalho das vacas e havia algumas pessoas que precisavam delas mas não tinham possibilidades da ter uma junta vacas.

Qual a solução para este problema? Com amizade associavam-se duas pessoas e emprestavam a sua vaca ao parceiro sempre que este precisava, nunca contando o tempo, nem pensando sequer em quem ganhava ou perdia mais.

Foguetes - sinal de festa

Tradicionalmente o foguete é uma manifestação de festa. Principalmente é utilizado nas festas dos santos nas é também utilizado em festas particulares, embora em menor número.

Há o costumo de atirar uni foguete para sinalizar o fim da preparação do andor ou por exemplo quando se dá inicio à Visita Pascal num lugar.

Festas e Procissões

Como já referimos no cap. II há na freguesia numerosas festas em honra dos santos venerados em cada lugar. As festas de um modo geral, constam de missa, pregação e procissão quanto à parte religiosa e do convívio, espectáculos e comércio quanto à parte profana.

Nas procissões sio levados andores de variados tamanhos enfeitados com bolos, galos assados e com dinheiro, além de trutas da época

Quando se realiza num lugar uma determinada obra relacionada com o centro de culto é naturalmente necessário dinheiro. Este vem de esmolas mas nestas casos é costume organizarem-se cortejos de oferendas. Nestes cortejos enfeitam-se viaturas (carros de bois ou tractores) com as ofertas.

XII - Vestuário Tradicional

Normalmente era feita uma distinção entre o vestuário que se destinava aos dias de festa e o que servia para uso diário,para o trabalho.

Nos dias de festas os homens trajavam fato completo constituído por calças e jaqueta ou casaco. Quando usavam casaco vestiam igualmente colete. Na cabaça usavam ou barrete ou chapéu. Como adorno e sinal de certa riqueza alguns homens usavam também um relógio de bolso acompanhado de correntes de ouro. O relógio era guardado geralmente num dos bolsos do colete ficando expostas só as correntes.

Igualmente em dias de festa ou nos domingos as mulheres usavam roupa melhor e especial. Vestiam uma saia de “estamenha” russa grande e larga,uma blusa e na cabeça um lenço. Algumas mulheres mais ricas usavam também o chamado cordão de ouro como adorno.

Durante a semana, isto é, nos dias de trabalho, os homens usavam calças de grim, uma camisa e um colete andando muitas vezes descalços mas alguns usavam botas de trabalho.

As mulheres, também nestas ocasiões, usavam saias longas, camisas de qualquer cor e lenços grandes. Usavam ainda na cabeça um pequeno chapéu redondo de pano, no qual entalavam as pontas do lenço. Como a saia era comprida e não dava muito jeito para fazer alguns trabalhos, as mulheres usavam o chamado alteador, com o qual regulavam a altura mais conveniente da saia com vista a fazer determinado trabalho.

XIII - Histórias e lendas tradicionais

De pais para filhos,de geração em geração têm passado histórias que são fruto do criatividade do povo. Umas são simples histórias, outras são também mensagem; umas são baseadas na realidade, outras são apenas pura fantasia.

De qualquer forma são importantes estas histórias porque são tradicionalmente usadas para transmitir mensagens ou para passar tempo. Além disso elas são também parte integrante da cultura deste povo concreto que é o de Freguesia do Souto da Carpalhosa.

Seguem-se algumas dessas histórias tradicionais:

O Mal Fez Levantar Uma Igreja

Um dia houve uma mulher que estava dentro da igreja e dentro daquela andava o pecado. Quando foi na altura da comunhão ela foi com muito jeitinho à boca depois do comungar e deixou a partícula num lenço e quando chegou a hora de sair, foi com o calcanhar do sapato para calcar a hóstia, e quando estava quase afazê-lo a igreja levantou-se e pôs-se no ar. Enquanto não foram levantar o que ela queria fazer, que não chegou a fazer porque morreu e caiu para trás antes de calcar a hóstia, a igreja esteve no ar. Tiveram que apanhar a hóstia, consagrá-la novamente e fazer a reza.

Pois dantes havia muitas coisas e já p’ra nós vermos o mal que fazíamos pois hoje é tudo “por cima da rama”.

Deus Te Salve Mulher De Trinta e Cinco Anos

Um dia Jesus passou por uma mulher de trinta e cinco anos toda rodeada de meninos, parecia uma coisa demais. Jesus disse: -“Deus te salve mulher de trinta e cinco anos. Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.

Continuaram o caminho e encontraram uma mulher de noventa e nove anos. Jesus disse-lhe: -“Deus te salve mulher de noventa e nove anos. Ainda hás-de viver outros noventa e nove”.

Então S. Pedro reclamou: -“Então meu bom Mestre tão velhinha, só cá fica a estorvar, só faz mal, só dá maus exemplos. Leva-a a ela e deixa cá a de trinta e cinco anos que tanta falta faz aos meninos e levai-la a ela”.

E antes de Jesus explicar as coisas disse: -“Pedro,levanta aquela pedra”. Pedro foi levantar a pedra. Quando a levantou viu os bichos mais pequeninos que existem no mundo. E depois Jesus virou-se para ele e disse-lhe: -“Que vistes debaixo da pedra?” -“Vi bichinhos mais pequeninos que insectos.” -“Pedro,quem domina esses bichos?” -“É o poder Divino.” -“Pois o mesmo poder Divino que domina esses bichinhos também domina aqueles crianças. Ela agora está santa e amanhã pode cair no pecado, perturbar-se e perder a alma. Enquanto ela tem a alma salva, já sofreu os sacrifícios dela, vai gozar a bem-aventurança Eterna.” Ora pois que a Deus nada se esconde, a Justiça de Deus é mais recta que existe.

Discussão Entre a Víbora e a Sanguessuga

Conta-se que um dia a víbora e a sanguessuga tiveram uma discussão e acabaram por dizer o seguinte uma para a outra:

-“Eu mordo para dar vida.” Disse a sanguessuga.-

-“Eu mordo para dar a morte.” Disse a víbora.-

Macaco, Homem do Diabo

Deus criou o homem. O diabo ao vê-lo ficou encantado e disse que iria também criar um homem. Criou um ser, mas um pouco diferente do homem,e quando o apresentou a Deus, Este limitou-se a dizer: -“Fizeste... fizeste foi um bom macaco!”

Assim,ainda hoje há quem use a expressão “um homem do diabo” para referir o macaco.

Mulher Feita de um Rabo de Gato

Conta-se que quando Deus formou o homem, depois de algum tempo de vida, o homem apresentou-se a Deus e disse-Lhe: -“Senhor não posso viver sozinho.”

Para resolver o problema, Deus adormeceu o homem, tirou-lhe uma costela e embrulhou-a bem embrulhada numa folha de couve. Depois de acordar o homem deu-lhe a costela embrulhada na folha de couve e disse-lhe: -“Toma lá,esta é a tua companheira.”

O homem foi logo esconder o embrulho num tronco de uma oliveira. Depois foi lá um gato e tirou-lhe o embrulho. O gato ia a fugir com ele e o homem não conseguindo apanhar a costela que a gato lhe roubara, conseguiu apenas cortar o rabo do gato que depois embrulhou como estava embrulhada a costela. Mais tarde, Deus dirigiu-se ao homem e perguntou-lhe:

-“Isto á o que te entreguei?”-

-“E sim mau divino mestre” respondeu o homem. Então Deus disse:-

-“Pois bem,tu estás a enganar-me e por ela serás enganado.”

E assim foi: a mulher veio a enganar o homem fazendo-o pecar, desobedecendo, no jardim Celeste.

Deus te Ajude

Conta-se que no tempo de Moisés, no Egipto, as pessoas começavam a espirrar e morriam. Para que tal no acontecesse, outra pessoa teria de dizer: -“Deus te ajude.” E assim as pessoas não morriam por causa dos espirros. Ainda hoje se diz isto quando alguém espirra.

O Justo e os Anjos

Um dia havia um justo que estava a rezar dentro da igreja e a uma certa hora riu-se. Até ali podiam-lhe fazer qualquer coisa que ele não se ria na igreja. Com isto o sacerdote admirou-se e disse ao sacristão: -“Quando passares diz aquele homem que não se vá embora sem eu falar com ele.”

O homem lá fez a reza dele e depois da missa sai ficando perto do guarda-vento. O padre saiu e no reparou que lá estava o homem. Então este disse: -“Então o sr. prior diz que queria falar comigo?”

E o prior respondeu: -“Há, está aí, está aí, pronto, pronto. Porque é que se riu a tal hora assim assim?”

-“Porque estavam dois anjos dentro da igreja. Um tinha um pequeno livro e escrevia com letras em ouro, mas escrevia muito pouco. O outro tinha um couro de um boi e já o tinha enchido de um lado e do outro e depois queria pôr mais coisas que lá tinha para assentar e viu que não cabiam. Deitou os dentes ao couro para ver se ele esticava e às duas por três escapam-lhe os dentes e bateu com a cabeça na parede e eu ri-me. A gente só se ri do mal!” Respondeu o homem.

Disse-lhe então o prior: -“Olhe, vá-se embora que você é melhor do que eu, já viu coisa que eu nunca vi.”

A Rica e a Pobre

Jesus foi pedir a casa da rica. Ela tinha guardas e muitos criados. O Deus Menino foi falar com a senhora depois de para tal ser autorizado. A senhora disse-lhe:

-“Que quer o menino?”

-“Uma esmolinha que nós não temos com que passar e o pai não tem sustento para nós.”

-“Estão doentes?”

-“Não.”

-“Então vai embora que eu não dou nada.”

E Nosso Senhor foi-se embora e quando passou ao pé de uma pobre disse-lhe esta:

-“O Menino tem muita fome.”

-“Aguenta-se bem.”

-“Espera aí menino,vai brincar com os meus um bocadinho.”

Ela já tinha o forno quente. Arredou a lenha para um lado e para o outro e deixando o forno limpo, pôs duas merendeirinhas: uma grande e uma pequenina.

Antes de acudir aos filhos deu a pequenina ao menino e a grande mandou-a para a mãe.

Perguntou Nossa Senhora:

-“Filho, é a esmola da rica?”

-“Não, a rica não deu nada.”

-“Então a esmola é de quem?”

-“Da pobrezinha.”

-“Que há-de ser dessa pobre que cada vez há-de ser mais pobre? E dessa rica que cada vez é mais rica?”

Nossa Senhora disse ainda: -“Então essa esmola devia ser premiada.”

-“Esta cada vez há-de ser mais pobre e vai gozar da Bem-aventurança eterna. A rica vai ficar neste mundo e vai sofrer.” Disse o Menino.

Lenda do Santo Ildefonso

No actual cabeço de Santo Ildefonso havia uma ermida com a imagem do santo.

Quando construíram a capela do Vale da Pedra traziam a imagem cá para baixo (para a capela) mas ele não querendo aí viver mudava-se para a ermida. Mais tarde alagaram a ermida do cabeço, da qual não se tem a certeza se era uma capela ou um nicho, e assim a imagem conservou-se na nova capela.

Actualmente não está exposto ao público, ao contrário do que acontece com Santa Bárbara. Quanto a esta também tem uma história curiosa. Conta-se que Santa Bárbara aparecia em sonhos a uma pessoa, aparecia uma imagem desta santa enterrada em determinado local.

Depois de ter sonhado, essa pessoa decidiu ir ver se no local com que sonhara se encontrava lá alguma coisa. Depois de pequenas ‘escavações’ encontrou a dita imagem do Santa Bárbara.

O Ganso

O rei foi um dia caça e encontrou um ‘velhote’ e disse-lhe:

-“Adeus ó ‘velhote’!”

-“Adeus sua Real e Majestade.”

-“Ouve lá,sabes-me dizer quantos ovos põe o ganso?”

-“Sua Real Majestade,põe doze.”

Daí a um ano o rei passou lá outra vez o perguntou ao velho:

-“E todos tiram?”

-“Se os primeiros três tirarem bem, todos tiram; se os três primeiros não tirarem bem, nenhum tira.”

Daí a outro ano o rei passou de novo pelo velho e disse-lhe:

-“Tens que me explicar isso.”

-“O ganso é o ano; os doze ovos são os doze meses. Se os três primeiros, que são os meses da Primavera, produzirem bem, o resto do ano é bom; se não, o ano é fraco para a cultura.

O Medo da Rainha

Dois caçadores foram com o rei à caça e encontraram um velho. O rei disse-lhe: -“Adeus lavrador dterras.” -“Adeus senhor delas.” -“Grandes camadas de geada.” -“São anos senhor, são anos.”-

-“Se eu lhe mandar cá dois frangos, o senhor é capaz de os depenar?” -“Eu sou capaz do os depenar e nem a penugem lhe deixar.”

Foram à caça e voltaram para o palácio. Lá o rei perguntou aos soldados se eles sabiam o que o velho tinha dito. Eles responderam: -“Senhor rei, nós não sabemos.” -“Ou me dizem até amanha ou têm pena de morte.” Disse-lhes o rei. Eles pensaram ir a casa do lavrador perguntar. Chegaram a casa do velho e este já estava deitado no quarto. Mandou-os entrar. Já no quarto o lavrador mandou-lhes tirar a roupa, embrulhou-a e arrecadou-a. Depois disse:-

-“Que querem vocês?” -“Queremos que explique o que disse ao rei e ele a si.” Rei: -“Adeus lavrador das terras.” Velho: -“Adeus senhor delas. (Ele é o senhor de todo o reino).” R.-“Grandes camadas de geada.” V.-“São os anos Senhor. (A geada eram os cabelos).” Ele disse-me se me mandasse dois frangos se eu os depenava. Vocês são os frangos que estão depenados.

Foram-se embora ter com o rei. Este disse-lhes: -“Já sabem não sabem?” -“Sim.” O velho veio a seguir e entregou a roupa. O rei disse-lhe: -“Muito obrigado.”

Mandou-o entrar e insistiu para escolher uma prenda que pagasse o serviço. O homem disse: -“Quem aceita não escolhe.” Mas o rei obrigou-o a escolher. O velho disse: -“O Senhor rei dá-me um cruzado por cada homem que tenha medo da rainha.” -“Está bem.” -“O senhor rei outra vez quando for à caça passe pelo meu quintal que há lá muitas lebres ‘e umas meninas bonitas’ (disse mais baixo)” Eles estavam num corredor e a rainha estava no quarto ao lado. R.-“Cale-se que está ali a rainha a ouvir.” V.-“Você é o primeiro a dar-me um cruzado por medo da rainha.”

XIV - Espressões, respostas feitas e vocabulário tradicional

Na evolução da língua o povo contribuiu com a sua parte e criou até expressões e vocabulário. Assim, foram surgindo expressões que só se usam em determinada região, ou que têm um sentido próprio. Eis algumas das expressões e do vocabulário tradicional desta Freguesia:

Respostas feitas

-Tenho fome!

Engole um home! (homem).

-O que á que eu faço para o almoço?

Cascas de tremoço.

-O que á que eu faço para o jantar?

Borras de alguidar.

-O que é que eu faço para a ceia?

Borras de candeia.

-São “tantas” horas (tantas = hora exacta quando se diz a expressão).

E a minha barriga com poucas melhoras.

-São “tantas” horas e um quarto.

Senhor estou farto

-Que horas são?

Faltam dez reis para meio tostão,

Uma sardinha para um quarteirão

E um soldado para um batalhão.

-Tenho frio.

Embrulha-te no capote do teu tio.

-Tenho sede.

Nata uma velha e chupa-lhe o verde.

-Tenho medo.

Compra um cão negro.

-Dói-me a barriga.

Salta-lhe p’a riba.

-E tu?

Eu sou sobrinho (a) de um tio meu.

-E “atão”? (ato = então)

Era pastor e agora já não.

-Ora bem. . .

Obra feita cabo tem.

-Queres estas todas?

E mais que fossem.

Expressões e vocabulário tradicional

-Pariu aqui a galega?! (Quando há muita gente junta).

-Sítio onde Judas perdeu as botas. (Local muito distante).

-Não tem era. (Não se conhece a idade).

-Andas a pedir sardinha fresca. Ou

-Andas a arranjar lenha para te queimares. (Quando alguém está a agir de forma merecedora de repreensão ou castigo)

-Tempestade num copo de água. (Tornar um pequeno acontecimento em grande escândalo).

-Tumba, tumba! Tuca, tuca, tuca! (expressão de movimento).

-A tropa manda “desenrascar”.

-Não são contas do teu rosário. (Isto no te diz respeito).

-Junta de vacas. (Par de vacas ).

-Vamos à vida que a morte é certa.

-Distribui-se o mal pelas aldeias. (Distribui-se o pouco que há, de modo igual, por todos).

-Meter-se em camisa de onze varas. (Encarregar-se de mais coisas do que aquelas que pode fazer).

-Nome em breve. (As iniciais do nome).

-Ganhar a jorna. (Ganhar o salário de um dia).

-Unhas e dentes. (Coragem).

-“Estrelantontem”. (Três dias antes daquele em que é referida a expressão).

-À terceira é de vez!

-As duas por três. . . (De repente).

-Ando de mal para pior.

-Enquanto o Diabo esfrega um olho. (Depressa).

-Vai numa perna e vem noutra. (Depressa).

-Couro e cabelo. (Tudo).

-De cavalo para burro. (De bom para mau).

-São as ‘filhoses’. (E o ultimo trabalho do género).

-A união faz a força!

-Tira a mão da luva que o sabão está caro. (Não mexer).

-Não passa da cepa torta. (No evolui).

-Cereja da noiva. (Resto).

-Fraca caça.

-Por os pontos nos “is”.

-Acertar agulhas. (Combinar)

-Na ponta da língua. (Bem sabido).

-De cor e saltado.

-Amanha também é dia.

-Apertar os calos. (Levar alguém a fazer-nos rapidamente a vontade).

-‘Tás c’uma sorte que nem água bebes.

-Cheira melhor c’ó que sabe.

-Cheira que não provas.

-Estraga albardas. (Aquele que estima pouco os objectos com que lida).

-Chapa ganha, chapa gasta. (Aquele que não tem regra no gastar).

-Fazer trinta por uma linha. (Ser muito mexido).

-Isto foi feito: à pistola, às três pancadas, (Depressa) à pressão.

-Não chega p’rá cova de um dente. (É pouco)

-Dar de mão beijada. (Oferecer uma coisa a uma pessoa para a qual ela no tem fazer esforço para a conseguir).

-Dizeres (aquilo que está escrito).

-Aibado (pequeno orificio nos cortiços).

-Alfaias (grupo de ferramentas agrícolas).

-Cortiços (espécie de casa feita de cortiça onde se alojam os enxames).

-Rezes (vacas ou outros animais).

-Larápio (ladrão).

-“Curgidades” - curiosidades (culturas geralmente antes da época e em pequeno número).

-Home - homem.

-Nomeada (prestígio).

-Sarrabulho (confusão).

-Riquitau (diarreia).

-Rodilha (roda de pano usada para pôr na cabeça entre esta e os objectos transportados sobre ela).

-Rebato (degrau à frente da porta).

-Cantaria (pedras que rodeiam a janela e a porta).

-Cantelhana (objectos diversificados).

-Raro (espaçado).

-Basto (muito junto).

-Postigo (porta pequena).

XV - Casas típicas

Tradicionalmente a casa era feita de modo a que estivesse pronta no dia do casamento.

Os materiais utilizados na sua construção eram: madeira (para o soalho e forro) e adobes, pedra ou tijolo (para as paredes). O telhado era feito com telha de canudo. Em algumas casas as janelas e portas levavam cantaria.

Paro dar cor ás paredes era utilizada a cal que se aplicava todos os anos por altura da Páscoa.

Quanto às divisões a casa tradicionalmente tinha um alpendre, uma sala, uma cozinha, três quartos e uma casa de arrumação. Isto na casa propriamente dita pois na parte de trás desta encontrava-se além do casa de forno, os currais para os animais e os armazéns tanto lenha como dos alimentos para os animais.

XVI - Cantares tradicionais

O povo sempre teve cantigas para animar festas, trabalhos e ocasiões especiais. Os ranchos folclóricos como o RANCHO FOLCLÓRICO E ETNOGRÁFICO DO SOUTO e o RANCHO FOLCLÓRICO JUVENTUDE AMIGA DE CONQUEIROS existentes nesta Freguesia são as entidades que mantêm ainda vivos alguns desses cânticos tradicionais.

Eis alguns dos que se cantam na nossa freguesia:

Sou Ceifeira

Sou ceifeira, sou ceifeira

Sou ceifeira, sou do campo             BIS

Qu’o meu pai é lavrador

Nas lindas terras de pranto BIS

Sou ceifeira, sou ceifeira

Que coisa maravilhosa                    BIS

Que assim eram as ceifeiras

No Souto da Carpalhosa                 BIS

Sou ceifeira, sou ceifeira

Que mais posso desejar                  BIS

Sou ceifeira estou no campo

Passo a vida a trabalhar       BIS

E agora p’ra terminar

Vou dizê-lo com alegria BIS

O Souto da Carpalhosa

Do Concelho de Leiria        BIS

Cadiaço

Eu subi a uma cipreste

Cheguei ao meio cai            BIS

Mandei-a seca p’rá morte

Que eu para morrer nasci    BIS

Cadiaço, meu bom cadiaço

Não me aperte a mão que me estala o braço           BIS

Cadiaço eu cá vou andando

Cadiaço eu ca vou bailando            BIS

Tu que fostes, eu bem sei que fostes

No Domingo á tourada       BIS

Talvez ver um escadote

E uma saia bordada             BIS

Vistes uma saia bordada

E que bordado tão lindo      BIS

Tu que fostes, eu bem sei que fostes

A tourada no Domingo       BIS

Eu passei pela terra alheia

Pedi esmola, ninguem ma deu         BIS

Minha me lá deixou escrito

Que a fome ninguém morreu          BIS

No fim repete-se a primeira estrofe.

Palminhas

Eu gosto de vindimar

Não sei com que companhia           BIS

Para podermos cantar

Cantigas durante o dia        BIS

Palminhas, palminhas, palminhas ao ar

Há sempre um continuado p’ra dois a cantar

Palminhas, palminhas, palminhas batidas

Só sei que ao batê-las so bem divertidas

Viva o lugar dos Conqueiros

Onde reina a brincadeira     BIS

Onde há mulheres casados

E raparigas solteiras            BIS

REFRÃO

O nosso rancho quo vira

As lindas terras com lares   BIS

Queremos mostrar ao povo

Que sabemos trabalhar       BIS

REFRÃO

O Beijinho

Esta moda do beijinho,

Quando ele á bem trocado

Por amor não é pecado

Dar um beijo ao namorado.

Cuidadinho rapariga

Qu’o beijo é ilusão

C’o a moda do beijinho

No traias teu coração

Dá-me cá um beijo

Ai não dou, não dou

Toma tu lá dois

Não os quero não.

Dá-me cá um beijo

Ai estes quatro

O meu omor, ao fim de casar

Eu te hei-de dar

Essa moda do beijinho

Ai meu Deus que animação

Para quem no diz que não

Ao meu pobre coração.

Eu para te dar um beijo

Deixei-me de sentimentos;

Matar-te a vontade

Só no dia do casamento

REF RAO

Por amar te peço um beijo

Que mais posso desejar.

Não peço a mais ninguém;

Eu nasci p’ra te amar.

Cuidadinho rapariga

Que o beijo amizade.

O beijo vem ao de cima

Por baixo fica a maldade.

REFRÃO
(E repetem-se as duas primeiras quadras).

XVII - Agricultura

Na freguesia do Souto da Carpalhosa raros são os casos em que há possibilidade de praticar agricultura de alto nível e em grande quantidade. Hoje o que existe, além dos quintais para cada família, são pequenas explorações que não reúnem condições para produzir rentavelmente. Sendo assim, há dificuldade de introduzir técnicas modernas, embora algumas delas sejam realidade. O caso mais generalizado é a introdução do tractor.

De entre os produtos cultivados destacam-se: o milho; o feijão; o vinho e o trigo. Ha ainda outros produtos que são cultivados em pequenas quantidades nos quintais como sendo couves, nabos, batatas, cebolas, alfaces, favas, ervilhas, alhos, cenouras, abóboras, etc.

Geralmente quem se dedica à agricultura dedica-se também a um ramo da pecuária, visto que esta anda geralmente ligada á agricultura e as duas, de certo modo completam-se.

Em menor número há também quem se dedique à apicultura

Actualmente os tractores realizam quase todas as operações agrícolas, mas antigamente eram as juntas de vacas que desempenhavam essa função. Com o objectivo de minorar os prejuízos causados pela morte de uma rez, os proprietários de vacas associavam-se no chamado Montepio, pagavam uma quota e cobriam os prejuízos de algum socorrendo-se do dinheiro que tinham em caixa proveniente dessas mesmas quotas

Para semear qualquer campo é necessário limpá-lo (cortar a erva e gradá-lo), adubá-lo (a adubação, que nos nossos dias é feita à base de produtos químicos, era feita com estrume ou com “escasso’ que era um adubo natural, feito de terra e restos de caranguejos e sardinhas). Em seguida lavrava-se a terra . Hoje com charruas de tractores, antigamente também com charruas mas puxadas por vacas (estas charruas eram primeiro do madeira e, de há sessenta anos para cá, de ferro).

Realizada esta operação semeia-se a cultura respectiva.

Ao longo do ano as operações mais custosas o que mais pessoal mobilizavam eram as lavouras, a sacha e as colheitas.

Para a rega das culturas hoje há motores que facilmente elevam a água, mas noutros tempos oram os engenhos (noras) ou as picotas (construídas junto aos poços e que constavam de dois paus : um vertical no chão, outro móvel na extremidade do primeiro tendo a possibilidade de chegar ao fundo do poço e encher um balde de água) que realizavam estas operações.

Para moer o milho e deste fazer farinha havia moinhos de água e, mais raramente, de vento

XVIII - SUPERSTIÇÕES

São uma realidade não muito falada mas que marca fortemente o comportamento de algumas pessoas principalmente as menos cultas ou as que têm pouco fé.

Muitas pessoas não mandam as cascas de um citrino para o lume por acreditarei que isso faria secar a árvore donde provinha o fruto.

Há quem desenhe uma cruz branca nas portas e acredite que isso afasta o demónio que é considerado o causador de todos os males e desgraças.

Fazer mal a um sapo parece não ter qualquer consequência para as pessoas mas há quem acredite que esse sapo vai ter com a pessoa quando esta estiver a dormir.

Por vezes olhamos para os bens alimentícios dos outros e desejamos comê-los. Algumas pessoas dizem que se quem desejar o alimento não o comer fica “aguado”, isto , fica doente.

Os males que acontecem a uma pessoa há quem creia que podem ser causados pelo mau desejo ou pensamento de outra que quer mal i primeira.

XIX - INDÚSTRIA

A freguesia do Souto da Carpalhosa não se pode dizer que seja industrializada a grande nível mas há no entanto pequenas e médias empresas que merecem relevo.

Há extracção de gesso pardo e há também uma unidade transformador de gessos (SIVAL) que tem incorporada uma secção de plásticos.

A cerâmica é uma actividade com largas tradições nestas paragens.

Uma das consequências positivas da industrialização são as lagoas artificiais

Além destas industrias há que referir pequenas oficinas que vão desde as de alumínios, às de carpintaria, desde as do pintura de automóveis às de reparações de todo o tipo, construção civil, etc.