Ex.mo e Rev.mo Senhor, Bispo,
Ex.mas Autoridades Civis e Militares
Rev.mos Colegas
Caros Seminaristas,
Minhas Senhoras Senhores
Há no padre da Nova Lei, à primeira vista, uma trágica contradição. Por: um lado aparece-nos separado do mundo sem pai, nem mãe, nem irmão, nem família, como o define o Apóstolo (Heb, 7, 3), por outro lado, o homem que é de todos, que se, fez tudo para todos. Tudo o segrega do mundo, desde a apresentação externa até aos mais recônditos pensamentos e afectos do coração. Impõem-lhe a separação determinações poderosas a que voluntariamente se submeteu a formação e, maneira de ser e, acima de tudo, a renúncia a uma família e as leis rígidas do celibato e castidade absoluta. Longe dos grandes centros de diversão, afastado dos lances traiçoeiros da política e da fortuna tendo que passar incólume através da lama dos caminhos dos homens, - por outro lado o mentor das consciências mesmo dos homens públicos o auscultador de todas as misérias sociais, a par dos grandes dramas da natureza humana e em dia com os seus progressos e declínios. Separado dos homens mas não dos seus problemas; amigo dos poderosos e amigo dos humildes; vivendo com Cristo, e com o mundo, o padre é em si mesmo, pelo menos aparentemente, uma contradição.
Exercendo funções sagradas na penumbra dos templos, separado da sociedade, o padre é todavia uma figura social. Amado por uns, odiado por outros, aclamado nas praças publicas. Ou escondido no silêncio do presbitério, perseguido ou caluniado ou discutido, o padre é sempre figura com projecção na sociedade. Mestre eminente na Universidade, modesto plasmador de inteligências juvenis no Seminário pároco das grandes urbes ou modesto cura da aldeia, orador de fama que arrebata as multidões ou rude, catequista em recantos ignorados, trabalhando com as elites ou com os selvagens da África, o sacerdote é um homem da sociedade. O padre católico é um homem da sociedade.
Pois meus senhores as barreiras desta contradição parecem cavar-se ainda mais a pique, quando verificamos que o padre encontra a sua força social precisamente, nesta separação da sociedade. Porque se não deve a ninguém, deve-se a todos; porque não é de ninguém, todos têm direito a ele; porque não tem família, todas as famílias têm jus ao seu carinho e doação; porque não está ligado a ninguém, é o confidente de segredos íntimos que a outrem jamais se confiam. Porque segregado do mundo, embora no mundo para o conhecer; pode pregar-lhe e chamar os homens ao bom. caminho. Auscultando os grandes dramas, mas directamente separado deles pode melhor do que ninguém ser o conselheiro amigo e o samaritano bondoso que derrama o bálsamo nas grandes, feridas da humanidade.
Acresce ainda que as funções sagradas, por ele exercidas, sendo por sua natureza àparte da sociedade têm contudo finalidade social. O padre católico, por conseguinte, tendo na mão as consciências e a riqueza infinita dos Sacramentos, formado no coração de Cristo e como Ele debruçado sobre a humanidade, é uma figura eminentemente social.
A análise desta contradição aparente e o desenvolvimento deste enunciado/tese daria matéria abundante para este modesto trabalho, a que, a praxe manda chamar “Oração de Sapiência”
Tentei antes, analisar este dualismo e provar a minha tese apresentando a V. Ex.cias uma nobre figura de sacerdote que, junto à sua condição de padre, teve a separá-lo da sociedade a cegueira e terrível doença, e que realizou uma obra de real valor e de grande projecção social.
V. Ex.cias hão-de perdoar-me fugir assim às praxes consagradas. Efectivamente é costume em solenidades desta natureza, os mestres apresentarem na sua “Oração de Sapiência” – só a terrível sugestão do nome seria bastante para me fazer logo desanimar – costumam os mestres, digo, apresentar ao ilustrado público que os escuta um trabalho da sua especialidade. E então dá gosto ouvir-lhes o resultado de penosas lucubrações e o fruto de trabalho aturado e da sua experiência de mestres competentes. Não assim hoje. E se, não sendo muito embora mestre, me não seria talvez difícil desenvolver qualquer tema sugerido pelas cadeiras de Português ou Latim de que sou humilde servidor vai para seis anos, não consegui todavia furtar-me à sugestão do sacerdote que tanta influência exerceu na minha vida e onde se apalpa em todo o seu dramatismo aquela contradição de que falei.
Talvez sejam razões de ordem sentimental. Mas por vezes o coração também manda. E não devo esquecer que estou a falar a rapazes que amanhã hão de ser padres e que muito bem farão à sociedade se o tiverem por modelo. Nem tão pouco devo afastar da lembrança que estou diante de pessoas cultas quer apreciam os autênticos valores, venham donde vierem, mormente nestes tempos de desvario em que o cultivo dos grandes valores se troca por frivolidades levianas, heróis desequilibrados de romances ou jogadores de futebol. Tanto mais que me parece imperdoável o silêncio que se tem feito à volta de uma figura que foi, sem contestação, de heroísmo que surpreende. Falo do Rev. P. Jacinto António Lopes, natural de Carvide e que foi pároco do Souto da Carpalhosa durante 30 anos e faleceu vai para dez.
V. Ex.cias hão de perdoar-me, pois.
Era num dia escaldante de verão. Por Carvide e arredores terrível nova se espalhava. Grande incêndio, de labaredas alterosas, lavrava no Pinhal do Rei. Toda a gente corria em azáfama febril, pronta ao combate.
O seminarista de Carvide, já adiantado, nos estudos, ia também com todo o seu entusiasmo natural. Correu como toda a gente, trabalhou como os mais aguerridos, pisou o terreno escaldante pela combustão, e, terminado o rescaldo, dirigiu-se até junto do mar, aspirando a aragem fresca. Leve arrepio corre-lhe o corpo. Forte constipação.
Volta para casa. Não é o mesmo. Há qualquer coisa de anormal no seu organismo.
Um pensamento obsidiante: a lepra. Será possível?! Essa terrível morfeia já hereditária na família ? Não! Não pode ser. Mas a dúvida persiste, dúvida cruciante, suportada em silêncio amargo.
Conclui os estudos e, pouco a pouco está à vista o que tanto temia. Aparecem as primeiras manchas.
Não há duvida. A lepra estava nele com, todos os seus horrores. Leproso... o homem amaldiçoado da sociedade, que tem no corpo a trágica imagem do pecado. Quantos projectos e sonhos lindos atirados brutalmente por terra.
E o mal vai aparecendo. O homem de actividade extraordinária que, por educação e por temperamento, jamais conhecera o desânimo, o estudante inteligente, aplicado e sempre optimista, o professor do Seminário de Coimbra, culto e óptimo didacta, o explicador de todas as disciplinas de Preparatórios, o homem que no entusiasmo da sua juventude se abalançara à reforma do Seminário de Coimbra naqueles tempos conturbados pela política, o amigo leal dos rapazes, promotor de passeios e excursões, pouco a pouco começa a ver tudo por terra. Não poderá continuar no Seminário, onde travara tantas lutas, onde consumira tantas vigília, onde orientara tantas vocações, já lá iam dez anos
Talvez naquele momento lhe viesse ao pensamento fugir para longe, tudo deixar. O seu corpo fisicamente bem proporcionado, as suas feições harmonicamente distribuídas, em breve iriam desaparecer. Para um ser vulgar, a atitude lógica devia ser o desânimo, o abandono de tudo, numa indolência estéril em que as energias se fossem derretendo como as suas carnes putrefactas.
Vontade de ferro, não era homem de pessimismos estéreis. Não canta a Escritura a grandeza de Job sentado no esterquilínio? Não andava então o mundo alvoroçado com as noticias sobre um certo P. Damião, que se enterrara numa ilha das paragens remotas do Pacifico e lá morrera vítima da dedicação, pelos miseráveis gafos?
O Sr. Pe. Jacinto sabia que a dor é o complemento da Paixão de Cristo - frase de S Paulo que há-de ser sempre farol luminoso no meio dos grandes mares do sofrimento humano. Sabia que a dor é a divina fecundadora de empresas impossíveis, o cadinho purificador das almas heróicas, dos grandes génios, de tantos santos do agiológio cristão. Têmpera de herói habituado desde criança à lição dura do trabalho e da luta nas dificuldades fará do sofrimento o fecundador de todo o seu apostolado.
Deixou o Seminário. Concorre à pastoreação da freguesia do Souto.
Era em Julho de 1907. Escolhia assim o local do seu martírio lento. O mal agrava-se. A doença irá fazendo os seus estragos apesar de todos os medicamentos empregados. Os membros hão de entumescer, a carne há-de retalhar-se, perderá avista dez anos mais tarde, os nervos desaparecerão, as feridas por fim cicatrizam, menos nas pernas que ficarão em chaga viva. Ficará aleijado, sem se poder mover por si, chegando a ser apenas um farrapo humano. Sofrimentos de outra ordem o assaltarão. Terá cinco pneumonias. Se ajuntarmos ainda as dores morais, as perseguições dos conturbados tempos da República, as desilusões sempre inevitáveis, as dificuldades inerentes ao trabalho com o povo, as ingratidões que ferem, a esterilidade aparente do apostolado, as incompreensões e mal-entendidos que também os teve e grandes, a ânsia de mais, o fogo e inquietação que o o devorava, podemos então dizer dele que foi como Cristo o homem dai dores.
Como Job nunca dos seus lábios sairá uma queixa. Ao Sr. Bispo escreve ele: “A doença que há anos venho sofrendo tem produzido em mim destroços manifestos e profundos: atacou os olhos apagando-me a vista, afectou a sensibilidade que fez desaparecer e os nervos que em parte destruiu.” Mas acrescenta logo: “Não exponho isto para me lamentar, pois eu entendo que o Senhor em tudo quanto faz ou permite deve ser sempre louvado.” Sempre bem disposto, sem uma queixa, chega até a brincar com a dor. “Nosso Senhor sabia quanto eu era mauzinho, por isso tirou-me as pernas e pós-me ainda dois guardas: um de cada lado.” Já na última doença, o seu maior martírio era a preocupação de dar trabalho, de ser pesado.
Continuará por toda a ida a trabalhar infatigavelmente. Dirige a enorme freguesia, passa longas horas no confessionário, por vezes a arder em febre, superintende em todos os ramos da administração realiza obras que exigem capacidade de trabalho verdadeiramente extraordinária.
Sofrer uma doença, suportar uma adversidade passageira é fácil. Mas sofrer durante dezena de anos sem um queixume, sem uma palavra de amargura, sem um ai, sem nunca abandonar o trabalho extenuante capaz de arrasar uma pessoa com saúde de ferro e dando sempre graças a Deus pelo sofrimento, então é ser herói. Se mais nada fizesse na sua vida quem conhece o papel social da dor, pode calcular o bem que terá feito à sociedade.
Na gesta dos heróis, na escalada íngreme dos santos e até nos lances decisivos da História aparecem-nos as chamadas ideias-força a marcar directrizes definidas, a nortear acções e a dar cor aos acontecimentos. Já o velho Catão gritava o seu “delenda Carthago”. Na Idade-Média o grito de “Deus o quer” levantou a Europa inteira e fê-la romeira do Santo Sepulcro. S. Bento com o seu “Ora et labora” imprimiu fisionomia cristã ao mundo bárbaro. S Francisco de Assis encheu de poesia e de amor a Idade-Média com a sua pobreza. O Infante D. Henrique, com a paixão pelo mar levou Portugal aos confins da terra. Enquanto nos homens desorientados essas ideias podem chegar a incendiar o mundo, deixando atrás de si ruínas e escombros, nos homens extraordinários e nos santos tornam-se força que transforma a sociedade e deixa rastros brilhantes que os séculos jamais conseguem apagar.
Todo o padre é homem de ideal. Correndo para ele desde criança quando vem bater à porta do Seminário continua a fitá-lo através da juventude, não o atingindo, mas elevando-o ainda mais no dia lindo da sua Ordenação sacerdotal. E quando esse ideal tem uma ideia-força a servi-lo então cresce o seu valor na Igreja e na sociedade. Também o Sr. Pe. Jacinto, desde o primeiro dia em que foi pároco, teve a norteá-lo um Ideal forte, uma ideia-força que lhe imprimiu movimento a todos os actos e orientou a sua actividade. Esta ideia-força foi o amor à Sagrada Eucaristia. À volta deste ponto girou todo o seu apostolado, toda a sua obra de piedade e de beneficência.
Não resisto a citar aqui uma página por ele ditada e conservada em manuscrito: “Era na tarde de um dos últimos dias de Julho de 1907. Rodeavam-me algumas. pessoas de família. Mal tinha entrado na residência paroquial, quando um toque a finados me chamava a atenção. Informei-me. Num dos lugares mais distantes da freguesia tinha falecido um rapaz e aquele toque indicava que em breve os seus restos mortais iam ser lançados à sepultura. Efectivamente, da estrada que dava acesso à Igreja paroquial, desembocava naquele momento um cortejo fúnebre: a cruz, alguns homens, um ataúde, uma banda de musica e bastante povo. O cortejo pouco depois internou-se no cemitério e pronto...
Retirei-me. Ia mal disposto, pessimamente impressionado. No momento em que assumia a paroquialidade da freguesia desaparecia aquele jovem, colhido por morte repentina, sem ter tempo de pronunciar o nome de Jesus.
Que triste coincidência! - pensava eu entrando no templo. Os pensamentos atropelavam-se. E eu impotente para suportar uma cruz de que apenas sentia a sombra, perguntava indecisa e confuso, como Saulo a caminho de Damasco: “Senhor, que quereis que eu faça?” No domingo, 4 de Agosto, lia aos meus novos paroquianos a minha carta de pároco colado e, na prática com que dava começo à minha acção paroquial, a breve espaço me afastei dos termos adrede preparados. Quando dei pelo erro, estava apontando o sacrário, a comunhão frequente como meio de santificação e penhor seguro e certo de eterna salvação. Sentia-me bem. Errando, tinha acertado. Estava junto do sacrário, encontrara o verdadeiro lugar do pároco. Estava bem, estava no meu lugar. Procuraria com a graça de Nosso Senhor não sair mais dali. Data deste dia o estabelecimento da «Obra de santificação Paroquial». Prometi encontrar-me, a começar desde aquele momento, ou no confessionário ou junto do sacrário. Ali me deviam procurar”.
Eis a verdadeira chave da sua acção pastoral. A Obra de Santificação Paroquial ou seja a organização de todo o seu trabalho de pároco, a qual terá nove graus: Catequese, Preservação da Juventude, Santificação das famílias, Santificação das festas, Preparação para a morte, Liga de sufrágio, Liga de Beneficência e outros, toda a Obra digo, tem como base a Eucaristia.
Ouçamo-lo ainda: «A Obra de Santificação. Paroquial, tendo, por fim a santificação de todos, a todos aponta a Sagrada Comunhão, como meio seguro de santificação.
As crianças, logo aos primeiros lampejos da razão, para as iniciar na vida cristã, para lhes conservar a candura da alma, a encantadora inocência, a graça baptismal com que a Igreja as recebe nos seus braços e lhes restitui os direitos à herança do Céu, a Obra aponta-lhes: Jesus – a Sagrada Comunhão.
À mocidade, para a precaver da corrupção do mundo, como força contra as ciladas dos seus inimigos, como verdade contra as ilusões e como arma contra os rudes combates da vida, a Obra aponta-lhes: Jesus – a Sagrada Comunhão.
Aos chefes de família, como força para suportar o peso da sua cruz como meio para alcançar a graça de se desobrigarem com agrado de Deus dos seus sagrados deveres, a Obra aponta-lhes: Jesus – a Sagrada Comunhão.
Ao que vai partir para a eternidade, como consolo e conforto, como penhor certo de vida eterna, e felicidade perdurável na posse de Deus, a Obra aponta-lhes: Jesus – a Sagrada Comunhão.
E ainda aos que viram partir um ente querido que uma falta leve ou insuficiência das satisfações retém no Purgatório como meio mais eficaz e seguro para prontamente o aliviar e lhe abir as portas do seu cárcere, e o transportar à mansão da glória, a Obra aponta-lhes: Jesus – a Sagrada Comunhão.”
Recordando, meus senhores as idades áureas da História da Igreja, o entusiasmo e valor dos primeiros cristãos e tendo presente as directrizes da Hierarquia e as modernas correntes de espiritualidade, temos de concluir que o Sr. Pe. Jacinto tinha razão e mais uma vez caminhou na vanguarda. A Eucaristia bem compreendida, a Eucaristia bem recebida levanta o homem até Deus, e o homem em contacto com Deus tem necessariamente de ser forte. Quando se assenta em fundamento desta força, quando se é norteado por esta luz, não admira que se realize uma obra.
Luz do mundo quer Cristo que sejam os seus apóstolos, os seus padres (Mat 5,14). E S. Paulo acrescenta que é pela pregação, pelo ensino que a fé irá aos homens (Rom 10, 17). O Sr. P. Jacinto, o professor brilhante do Seminário de Coimbra, fez da sua cátedra da igreja do Souto o candelabro onde esteve a luz que alumiou toda a paróquia e espalhou o seu calor até às freguesias vizinhas. Ou no púlpito ou na cadeira paroquial, no sermão ou na homilia, na catequese ou no confessionário, jamais a sua voz, sã até ao fim da vida, deixou de pregar. Alma afinada com o sentir da Hierarquia, caminhou sempre na vanguarda como a própria Igreja. O seu ensino estendia-se a todas as idades. As crianças, porém, mereceram-lhe cuidados especiais. Com que amor e carinho ele organizou a sua catequese! Escreve ele: “Começar-se-á a ministrar-lhes, de uma maneira intensa e constante, a instrução religiosa teórica e prática, não só ensinando-lhes o formulário da Doutrina Cristã mas procurando também dirigir-lhes a inteligência, de modo a compreenderem, na medida da sua capacidade, as verdades da nossa fé”.
Pondo em prática esta directriz, forma um corpo de catequistas a quem exige dedicação e cumprimento exacto das normas por ele traçadas. Ele mesmo preside sempre à catequese, julga pessoalmente das habilitações das crianças. Embora sem a vista, sabia admiravelmente prender-lhes a atenção. Quer as virtudes naturais cultivadas nas crianças: o amor à verdade, o respeito por si, e pelos outros. Isto porém não basta. É necessário a prática da vida cristã. A doutrina de Cristo é vida. Catequese sem a vida de piedade entre as crianças, de pouco servirá. Quantos sacrifícios lhe não custou! Eram bilhetes, que faziam as crianças andar à disputa, eram prospectos, festas de catequese com divertimentos, jogos, grande quantidade de prémios dados principalmente em roupas. Só num ano chegaram a ser distribuídas 340 peças de vestuário. A festa grande da Catequese era esperada com ansiedade e saudada com alegria. As crianças, agrupadas por lugares, construíam as barracas, verdadeiro claustro da verdura, onde era servido o lauto jantar da festa. Eram mil e uma invenções.
Não havia criança que resistisse. A pequenada sentia-se galvanizada. ,Ele mesmo escreve: “As crianças concorrem em alegres bandos à Igreja a receber o Pão dos Anjos. Edifica vê-las passar sorridentes, alegres, espelhando no rosto a paz e a candura da alma, umas pobrezinhas, muito pobremente vestidas, outras mostrando viver com mais, comodidade, mas todas com muita modéstia e simplicidade. Edifica vê-las passar. E ao vê-las descalcinhas, pobrezinhas, modestas, simples, com o sorriso nos lábios, lembram-nos as palavras de Jesus no sermão do monte: Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos Céus. E é certamente com o reino dos céus que aquelas crianças devem ir sonhando. Cerca-as uma auréola de respeito e uma espécie de veneração.
Quando de crianças traquinas, irrequietas, vindas de meios tantas vezes corrompidos, se consegue este resultado, nada mais se pode dizer da obra educativa do sacerdote catequista.
Sempre desejoso de modernizar os seus métodos catequísticos, ainda poucos anos antes da morte, organizava exames públicos de doutrina e ditou e mandou imprimir um catecismo, depois adoptado na freguesia.
A juventude mereceu-lhe também os seus cuidados. E que pedagogo! É ouvi-lo: “Quinze anos, idade em que começam verdadeiramente os perigos. Párocos e catequistas aumentem de cuidados, vigilância e zelo para a guarda da virtude. Uma palavra, um conselho, a lembrança de um preceito do Senhor, a conivência mais assídua e outras santas indústrias evitam muitos perigos”. E na Obra lá está o segundo grau: Preservação da Juventude.
Só Deus sabe quantos esforços dispendidos para cumprir integralmente este programa.
A família não lhe mereceu menos cuidados. É ainda ele a ditar: “Da santificação do lar doméstico depende a salvação da família. A educação ministrada no lar tem geralmente influência decisiva na vida. Os modos o trato, as palavras, os costumes, tudo reflecte com relativa perfeição, a educação que em casa se dá ou recebe”. Daí o ardor com que combateu sempre todos os agentes de desagregação familiar, o alcoolismo, a imoralidade, e o cuidado com que sempre procurou assistir às necessidades familiares.
Em todo este trabalho utilizou sempre as “elites”. Procuraria que o seu ensino fosse a toda a parte. Por isso, quando vieram os modernos processos da A.C., que ele aliás abraçou com entusiasmo, pode declarar sem orgulho mas com verdade: “A A.C. nada me trouxe de novo nos seus métodos de trabalho”.
A sua pregação foi brilhante. Saía-lhe do fundo da alma. Jamais deixou de estudar e estar em dia com a evolução da sociedade. Consciente da própria insuficiência, que exagerava, trouxe à sua igreja as melhores pregadores de todo o país.
Não foi apenas, meus senhores, o ensino religioso que o preocupou. Confrangia-lhe o coração ver na sua freguesia tão grande penúria de escolas e o rendimento diminuto que davam. Basta dizer que na escola da sede da freguesia, em 1931, já havia perto de 30 anos que nenhuma criança fizera exame de 4ª classe, o que nem sempre era por culpa das respectivas professoras. O ambiente escolar, abolido o ensino religioso deixava a desejar. Vocações sacerdotais não as tinha. Era em 1931. Depois de pensar maduramente e expor ao seu Prelado a ideia que o torturava, resolve fundar na freguesia duas escolas católicas onde, a par de instrução sólida, fosse dada uma educação primorosa às crianças da freguesia e ali pudesse ir buscar vocações para o sacerdócio. Obra pensada, era obra concluída. Em princípios de Junho, lança-se a primeira pedra. Ele próprio dirige a obra, no seu carrinho de doente. Passados apenas 4 meses, em Outubro, erguia se um elegante edifício, feito com todos os requisitos da pedagogia moderna, com duas salas, cada uma com cerca de 50 metros quadrados. No dia 7 de Outubro começavam as aulas com cerca de 80 meninos e meninas. Passado o primeiro ano lectivo, a escola católica apresentava a exame de 2º grau o seu primeiro aluno. E 3 meses depois o primeiro seminarista. Dai em diante até hoje, a escola católica, absolutamente gratuita e sem qualquer subsidio do Estado, tem continuado na vanguarda. E por sua vez as escolas do Estado já têm alunos para exame. Os desígnios que teve em vista realizaram-se plenamente. O analfabetismo começou a desaparecer e as vocações também vieram. 3 padres e 7 seminaristas conta hoje a Escola Católica O seu amor pelas crianças leva-o ainda mais longe. Em breve se erguia novo edifício para residência de professores e casa da sopa, com amplo refeitório e espaçosa cozinha. E todas as crianças da Escola começam a ter a sopa diária.
Pão do espírito e pão do corpo juntamente. O homem não vive só de pão, mas também de pão. Podem os inimigos da Igreja acoimá-la de obscurantista. A obra do Sr. Pe. Jacinto Lopes continua por sua vez ainda hoje a desmenti-los.
Tem o culto externo da Igreja importante função social. Durante séculos foi Ela sozinha quem manteve, mormente nas aldeias, privadas dos progressos da civilização, o sentimento de higiene e de sociabilidade entre os homens. O domingo - o dia do Senhor - era de descanso, que trazia a alegria e o bem estar. A missa dominical a única fonte de informação, o ponto de reunião obrigatória, onde os homens cultivavam os sentimentos da solidariedade cristã e as virtudes cívicas. As festas religiosas a única distracção, o grande acontecimento da terra. Por outro lado é incontestável que o progresso material, as transformações sociais, o relaxamento dos costumes, pouco a pouco, foram introduzindo abusos lamentáveis, servindo muitas vezes a capa da Religião para encobrir e pretender justificar desregramentos filhos do prazer desenfreado.
O Sr. Pe. Jacinto compendia tudo isto. Por isso, procurou extirpar, com toda a energia, os abusos intrometidos, o que lhe acarretou por vezes graves desgostos. Queria outrossim que o povo da sua freguesia encontrasse no esplendor litúrgico aquela beleza que eleva a alma humana acima da pequenez raquítica do meio em que vivia. Quem não recorda, por exemplo. o esplendor das Quarenta Horas, realizadas na freguesia desde 1908, as primeiras da Diocese? Que profusão de luzes, de ornamentações! A elas vinham todos os anos multidões das freguesias, vizinhas e até distantes.
Quer que a sua igreja seja um templo digno majestade de Deus, onde os homens se sintam bem. Um dia pensa transformá-la. Troca impressões, escuta alvitres, ouve opiniões, e chama artistas. Concebe o seu piano grandioso. Encontra o ilustre miniaturista das Caldas da Rainha Eduardo Mafra Elias, que Leiria também admiraria na Exposição de 1940, o artista capaz de dar realidade aos seus planos. E o sonho transforma. Era em 1928. E a obra do tecto em baixo relevo, obra de alto valor artístico, vai surgindo e está concluída no breve espaço de um ano. Hoje; encanto de quantos a contemplam extasiados. A minha melhor obra de vulto - diz com orgulho o ilustre plasmador do barro. Pintadas as paredes e soalhada a cerne das matas nacionais e a matacauba, a obra ficaria em perto de 70 contos. Tinha 5500$00 ao começar. E ficou concluída sem deficit.
Da boa harmonia entre as várias freguesias e aglomerados populacionais, depende em grande parte o bem-estar da sociedade. Também este pormenor não escapou ao heróico Prior do Souto. Aproveitando os mesmos laços de fé que unem os povos, dominado pelo seu amor à SS. Eucaristia organiza as chamadas «Jornadas Eucarísticas»: visita das populações da freguesia do Souto às terras vizinhas. Havia lugar para um programa de piedade em conjunto, tempo para confraternização e até para sãs diversões. Era vê-lo a acompanhar o seu povo, no carrinho de doente ou, quando os acidentes do caminho o não permitiam levado numa cadeira por quatro homens, tudo diria e a todos entusiasmando com a sua presença, pelos areais, a caminho dos Milagres, de Monte Redondo, Mata Mourisca, Monte Real, Carvide, Vieira, Barreira, etc. Tudo quanto pretendem as modernas concentrações da A.C. já ele o tinha conseguido muito antes e com vantagem, com aquela visão larga que lhe era peculiar.
Coração tão afinado pelo Coração de Cristo, sabendo como ninguém o que era o dor e o sofrimento, jamais miséria alguma lhe deixou indiferente o coração. A freguesia é pobre, mesmo das mais pobres do concelho. Não admira, pois, que muita necessidade material houvesse. Mas por outro lado, não seriam grandes os recursos materiais, , que ali pudesse auferir para realizar grande obra de beneficência. Todavia causa-nos espanto como é que o Prior do Souto conseguiu realizar tantas obras que importaram em centenas de contos e dispender outro tanto em obras beneficência. Há destes milagres da Providência. A “Picola Casa” de Turim, a Obra do Pe. Américo e tantas outras aí estão a atestar que os homens de fé são capazes de remover montanhas. Não resisto a transcrever-lhe mais uma página que nos dá o segredo da sua caridade sem limites. É ele quem nos conta: Um dia passa no adro onde várias crianças alegres e palradoras comem os seus farnéis. Nota que algumas partilham a sua pobre refeição por aquelas que nada haviam trazido. Impressiona-se também com a pobreza de alguns fatos. E continua: “Mas o facto trouxe-me uma dolorosa apreensão. Haverá fome na freguesia? Discretas informações provavam-me que sim... Não podia ser assim. Não havia de continuar assim. Como arranja obra fundos ou dinheiro, para fazer face às despesas, certamente avultadas, que faz com as suas obras de caridade especialmente com vestuário, géneros alimentícios, medicamentos, peças de roupa para os pobrezinhos protegidos pela Obra, lembranças e prémios às criancinhas e missas pelas intenções dos benfeitores?...Eu devo confessar que o dinheiro foi sempre a coisa que menos me preocupou e a ultima em que sempre pensei: Nosso Senhor disse que tinha vindo trazer a caridade à terra. Portanto a caridade deve encontrar-se nalguma parte. E encontra. O dinheiro é sempre a última coisa em que a Obra pensa e deixa sempre Nosso Senhor que providencie sobre isso. E nunca se deu mal, nunca lhe falta, mas até, pelo contrário, há sempre saldos. Não organizo o programa das festas da piedade ou caridade pelos fundos que a Obra tem: mas os fundos surgem proporcionalmente à honra e glória que as obras dão a Nosso Senhor. A Obra não pensa de onde há-de vir dinheiro... A caridade de Cristo é um tesouro inesgotável.” Conta depois como organizou a obra de assistência na freguesia. E acrescenta: “O número dos benfeitores aumenta todos as dias, podendo assim, a Obra, estou certo disso, ir estendendo, cada vez mais o campo de caridade. Beneficia actualmente – devia escrever por 1921 – mais de 200 crianças e 50 pobrezinhos sem contar aqueles que a Obra auxilia com esmolas avulsas Só no último ano a Obra distribuiu por criancinhas e pobrezinhos, cerca de 3300$00, em peças de vestuário, géneros alimentícios e medicamentos”.
Qualquer comentário seria inútil. Basta frisar que isto não foi apenas num ano ou dois, mas tor toda a sua vida de pároco, chegando as verbas por vezes a atingir somas muito maiores. Não era a caridade a monte, que só serve para vistas e reclamos nos jornais, mas a assistência organizada, dando apenas a quem precisa
Durante a vida desprezou tenazmente todo o conforto material, ele que tanto precisava dele. Morreu pobre, como pobre viveu. O extenso passal, roubado pela República, foi por ele comprado e deixado novamente à Diocese. O seu plano era construir ali uma grande casa de repouso para o Clero da Diocese passar os últimos dias da vida, plano que infelizmente não pôde realizar
Só mais uma consideração. Quando a virtude é verdadeira, diz-nos sempre alguma coisa de novo. Por isso é que os Santos são portadores de uma mensagem extraordinariamente benéfica. O homem foi feito para Deus. Olhado à distância de Deus, será um ser indecifrável, um labirinto de enigmas, um complexo trágico. Para Deus tende, mesmo quando confunde o farol de luz plena com os fogos fátuos e vai procurar nos bens passageiros a felicidade por que aspira. O padre é, por sua essência, o homem de Deus. É n’Ele que está toda a sua força. Se lhe tirarmos o sobrenatural, será apenas uma caricatura. E, à medida que se aproxima de Deus, cresce o equilíbrio da personalidade. Quanto mais se aproxima de Deus, e para Ele não se caminha sem penosa ascese, maior será o seu rendimento. Por outro lado irá perdendo o equilíbrio humano e deixa de ser útil à sociedade, desde que se afasta de Deus e perde o contacto com o sobrenatural. A origem das grandes tragédias e escândalos sacerdotais, sempre tão exagerados e explorados têm aqui a sua explicação.
Se encarássemos a obra social do Sr. Pe. Jacinto Lopes apenas como um postulado da sua bondade, como resultado da sua força de vontade, das suas qualidades naturais, seria desfigurá-lo e traí-lo. Só o amor de Deus, à SS. Eucaristia, amor que é fogo, alimenta de com longas horas de oração, com o desprendimento continuo de si mesmo, com a fidelidade aos seus deveres de piedade, com uma devoção terníssima a Nossa Senhora, só o amor divino, digo, conseguiu dar equilíbrio à sua persona1idade e sentido a toda a sua obra. Júlio Dinis, com o seu naturalismo romântico, ao descrever-nos o seu Reitor «apoiado na grossa bengala de cana distribuindo esmolas, fustigando vícios e consolando dores, falseou-nos essa figura tão bela, roubando-lhe o sobrenatural, a força motriz da sua caridade. O Sr. Pe. Jacinto nunca teria realizado tão grandiosa obra se não fosse um homem de Deus, se não tivesse a norteá-lo um ideal superior, a abraçá-lo a caridade de Cristo, que lhe fazia ver no próximo a imagem do Crucificado, que lhe fazia encarar a vide como doação devida ao próximo. Sem isto, é impossível a qualquer sacerdote realizar obra de valor social. Tirem ao P. Cruz a vida de união com Deus, tirem ao P. Américo a Missa e meditação do Evangelho e o P. Cruz deixará de ser venerado por todos, e as centenas de rapazes dos Casas do Gaiato voltarão para a tua a rua a engrossar a chusma dos criminosos. Com a luz deste ideal forte a iluminar superiormente toda a sua vida, o saudoso pároco do Souto da Carpalhosa realizou uma obra indiscutível, de real valor. O homem que, por ser padre, parecia separado da sociedade, o doente que se consome numa doença anti-social, o cego, a quem falta o sentido que mais nos põe em contacto com os nossos semelhantes, realizou uma obra social que ainda hoje nos surpreende e espanta
É tempo de terminar. E faço-o de bom grado, pois já abusei demasiado da vossa benévola atenção. Parece-me que posso concluir. Afinal a tal contradição é apenas aparente. A grandeza e valor do padre não são diminuídos pelas leis rigorosas que o colocam, não fora, mas acima da sociedade. Pelo contrário nelas estão precisamente a sua força e salvaguarda. Será diminuído, sim, o seu valor, quando ele deixar de se nortear pela luz que vem de Deus.
E é para vós, caros rapazes, a ultima palavra. O padre nunca é um falhado, senão quando quer. Procurai tornar a vossa personalidade rica de virtudes naturais. Infundi-lhe depois a luz e o calor que vêm da união com Deus, do amor à SS. Eucaristia, a dar sentido a toda a vossa vida. E então realizareis obra grandiosa como realizou o heróico pároco do Souto, honra de sua família, glória da Igreja e modelo de todos os grandes sacerdotes.